Sally Tian, 30, formada em MBA pela Harvard Business School em 2024, decidiu abandonar o "sonho imigrante" corporativo para retornar à China e iniciar um fundo de busca (*search fund*) com o namorado. A decisão, tomada após quase três anos trabalhando em uma grande empresa de tecnologia chinesa e vivenciando lockdowns em Shanghai, foi motivada pelo desejo de ser sua própria chefe e adquirir um negócio para administrar.
Nascida em Guangzhou, Tian viveu no Canadá dos 10 aos 15 anos e depois retornou para estudar em uma escola internacional na China. Sua carreira começou em consultoria em Toronto, mas a previsibilidade a levou a se mudar para Beijing em 2020. Em setembro de 2024, o casal se estabeleceu em Shanghai, escolhida pela rede de investidores e oportunidades de negócio.
O modelo de negócio e a oportunidade na China
Um fundo de busca é um modelo no qual empreendedores buscam e adquirem uma pequena ou média empresa para operar. Nos EUA e Canadá, investidores aplicaram cerca de US$ 1,45 bilhão nesse tipo de fundo nos últimos quatro anos, segundo relatório de 2024 da Universidade Stanford que analisou 681 fundos desde 1984.
Tian vê uma oportunidade única na China, onde o modelo é menos comum. Seu foco é amplo, abrangendo serviços B2B, franquias B2C e manufatura. Ela aponta que muitos donos de negócios familiares da primeira geração estão na faixa dos 60 ou 70 anos e buscam um plano de sucessão, já que seus herdeiros podem não querer assumir a empresa.
Dados de 2023 da Federação Nacional da Indústria e Comércio da China mostram que empresas privadas representam mais de 90% de todas as companhias no país, e cerca de 80% dessas firmas privadas são negócios familiares.
Raízes reconectadas e uma nova perspectiva
A mudança para Shanghai também teve um impacto pessoal profundo. O casal alugou um apartamento de três quartos por 8.900 yuans mensais (cerca de US$ 1.270), em um bairro a 40 minutos do centro com forte presença de expatriados.
Tian afirma que retornar à China a ajudou a reconectar-se com suas raízes e a entender melhor as lutas de seus pais, que imigraram para o Canadá. "Crescer como imigrante no Canadá mudou a dinâmica familiar muito cedo, porque todos estavam focados em sobreviver em um novo país", disse ela à Business Insider.
Ela descreve um processo de adaptação que a fez repensar sua própria identidade. "Há um comportamento social em que você sente que precisa diminuir sua própria identidade para se adaptar à cultura principal", explicou. Trabalhar na China a forçou a entender como seus colegas pensavam, um processo que a tornou mais empática.
Vantagem competitiva e o futuro
Para Tian, empreender na China oferece uma vantagem cultural decisiva. Ela acredita que o sucesso de um fundo de busca nos EUA dependeria muito da construção de relacionamentos com vendedores potenciais, o que seria mais desafiador devido a diferenças culturais. "Não acho que eu conseguiria me conectar tão bem com, por exemplo, uma pessoa do Meio-Oeste americano na casa dos 50 ou 60 anos", ponderou.
"Culturalmente, eu entendo. Sinto que esta é a minha casa, e não sinto que estou fazendo isso na casa de outra pessoa", concluiu Tian, definindo Shanghai como o palco para construir seu próprio negócio e futuro.