Você já imaginou ter seu desempenho medido por um robô? Pois é exatamente isso que está acontecendo com **10 mil funcionários** da divisão de consultoria da KPMG nos Estados Unidos.
A empresa lançou um painel interno que rastreia quantas vezes cada profissional usa ferramentas de inteligência artificial. Mas o que parecia uma estratégia para impulsionar a produtividade virou um jogo de gato e rato.
O sistema que todo mundo aprendeu a burlar
Dois funcionários da KPMG que falaram com o Business Insider — sob condição de anonimato — revelaram um detalhe constrangedor: o dashboard é **incrivelmente fácil de enganar**.
"Você pode simplesmente rodar um prompt e aquilo já conta como seu uso de IA do dia", disse um dos profissionais. Pior: alguns já automatizaram sistemas para disparar comandos nos fins de semana, inflando artificialmente suas métricas.
O problema? O painel não consegue rastrear ferramentas populares de "vibe-coding", como Lovable ou Claude Code, que engenheiros de software usam com frequência.
A meta dos 75% que virou obsessão
A KPMG estipulou que cada funcionário precisa usar IA em **75% dos dias úteis** do mês. A justificativa? Dados internos mostram que "usuários regulares de IA produzem trabalho de maior qualidade, sentem menos estresse e gastam mais tempo em tarefas estratégicas", segundo Russ Grote, porta-voz da firma.
Mas a pressão por resultados criou um efeito colateral perigoso: em vez de usar IA de forma inteligente, os funcionários aprenderam a **jogar o jogo das métricas**.
Não é só a KPMG: a febre dos dashboards corporativos
Consultorias não são as únicas obcecadas por medir a adoção de IA. O JPMorgan, por exemplo, monitora seus 65 mil desenvolvedores com painéis que ranqueiam quem usa GitHub Copilot e Claude. A Disney também tem dashboards que contam tokens gerados por funcionário. Na Amazon, times acompanham quantos engenheiros usam IA todo mês.
A diferença? A KPMG diz que sua abordagem é "com a cenoura, não com o porrete". A empresa criou até um prêmio em dinheiro — o **AI Spark Innovation Awards** — para consultores que demonstrarem usos criativos da tecnologia.
Mas, para os funcionários ouvidos pelo Insider, a mensagem que chega na prática é outra: **bata a meta, não importa como**.
O que realmente importa no uso de IA?
Russ Grote insiste que a empresa está "bem além da simples adoção" e foca em incentivar usos "mais frequentes e sofisticados". A KPMG até firmou parceria com a Universidade do Texas para estudar como extrair resultados avançados com IA.
A descoberta? "As pessoas que mais obtêm valor da IA não tinham o conhecimento técnico mais profundo. Em vez disso, tratavam a IA como uma parceira verdadeira, iterando e guiando-a em trabalhos mais complexos", explicou Grote.
O problema é que **nenhum dashboard consegue medir parceria**. E enquanto as empresas insistirem em métricas rasas de uso, os funcionários continuarão encontrando maneiras criativas — e enganosas — de fazê-las parecer bonitas.
**O alerta fica para líderes:** antes de criar um painel de monitoramento, pergunte-se se ele está medindo o que realmente importa ou apenas incentivando o jogo do faz de conta.