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Você sabia que uma criança brasileira tem quase o dobro de chance de viver na pobreza do que um adulto? Enquanto 23,1% da população total está em situação de pobreza, entre os pequenos de 0 a 14 anos esse número salta para 39,7%. E a extrema miséria atinge 5,6% delas, contra 3,5% da média nacional.

Os dados são do IBGE, mas quem fez o alerta foi o Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). O estudo "Orçamento e Direitos" escancara uma realidade brutal: o Brasil trata a infância como prioridade absoluta apenas no papel.

O dinheiro sumiu: R$ 25 bilhões a menos em dois anos

O relatório mostra que o gasto social com crianças e adolescentes caiu de R$ 265,9 bilhões em 2023 para R$ 240,2 bilhões em 2025. Uma redução real de 9,6%. Isso significa R$ 25,7 bilhões a menos para políticas que deveriam proteger quem mais precisa.

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E o mais chocante? As crianças representam 26% da população brasileira, mas os programas voltados a elas consomem apenas 4,37% de todo o orçamento da União. Uma distância abissal entre o discurso e a prática.

Bolsa Família engole 45% de tudo – e o resto é migalha

O estudo aponta que o Ministério do Desenvolvimento Social responde por 50,7% das despesas federais com a infância. Desse bolo, 88,7% vão para o Bolsa Família. Ou seja, um único programa concentra quase metade de todo o recurso direcionado a crianças e adolescentes.

"As políticas públicas para a infância não podem se restringir ao Bolsa Família", alerta Ariel de Castro Alves, ex-secretário nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. "Precisamos de serviços de enfrentamento ao abuso sexual, à exploração, ao trabalho infantil, à drogadição, e de acolhimento às vítimas de violência."

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Violência contra crianças: apenas 39,6% do orçamento foi executado

O dado mais estarrecedor talvez seja este: o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania executou menos de 40% do valor autorizado para ações de enfrentamento às violências contra crianças e adolescentes em 2025. E desse montante, R$ 390,36 mil eram "restos a pagar" – despesas de anos anteriores.

Enquanto isso, 14 crianças e adolescentes são assassinados por dia no Brasil, e mais de 150 são vítimas de violência sexual diariamente, segundo dados do Unicef e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Creches: só 39,7% das crianças de 0 a 3 anos têm vaga

Na educação infantil, o relatório reconhece que houve retomada do financiamento federal para construção e manutenção de creches. Mas os números do IBGE mostram a realidade: apenas 39,7% das crianças de 0 a 3 anos estavam matriculadas em 2024. O Brasil segue longe de cumprir as metas do Plano Nacional de Educação.

O estudo também destaca que o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) voltou a receber recursos – R$ 21,5 milhões em 2025 – após quatro anos sem financiamento federal. Um alívio, mas ainda insuficiente diante da dimensão do problema.

Pobreza tem cor e endereço: crianças negras e do Norte/Nordeste são as mais afetadas

O relatório do Inesc escancara o recorte racial e territorial da desigualdade. A pobreza e a miséria vitimam principalmente crianças negras, indígenas e que residem nas regiões Norte e Nordeste. Um ciclo perverso que se retroalimenta: sem investimento, essas crianças crescem sem oportunidades, e o país perpetua sua chaga social.

Como lembra o sociólogo Karl Mannheim: "O que se faz agora com as crianças é o que elas farão depois com a sociedade." O Brasil parece ter esquecido essa lição.