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Duas crianças ucranianas capturadas pela Rússia foram enviadas a um acampamento recreativo na Coreia do Norte destinado a filhos da elite local, conforme revelou a especialista jurídica Kateryna Rashevska, do Centro Regional de Direitos Humanos da Ucrânia (RCHR). O depoimento foi coletado por um subcomitê do Congresso dos Estados Unidos e divulgado nesta semana.

As crianças, identificadas como Misha, de 12 anos, da região de Donetsk ocupada, e Liza, de 16 anos, de Simferopol, na Crimeia, foram levadas ao Acampamento Internacional Infantil de Songdowon junto a um grupo de menores russos. Para Rashevska, elas são vítimas de crimes de guerra e estão sendo usadas como parte da propaganda russa.

Contexto de uma prática sistemática

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O governo ucraniano afirma que a Rússia sequestrou mais de 19,5 mil crianças desde o início da invasão em fevereiro de 2022. No entanto, a especialista Kateryna Rashevska pontua que o caso de Misha e Liza, documentado recentemente, provavelmente não está incluso nessa cifra oficial, sugerindo que o número real pode ser maior.

"Há atualmente evidências insuficientes para confirmar elementos de deportação ilegal neste caso, tornando inadequado classificá-las prematuramente como crianças sequestradas nesse sentido", afirmou Rashevska. Apesar disso, ela ressalta que a viagem à Coreia do Norte envolve graves violações, como doutrinação política, militarização e uso em propaganda.

Aliança estratégica e violações

O envio das crianças ocorre no contexto do aprofundamento da aliança entre Moscou e Pyongyang. Desde o início da guerra, a Coreia do Norte tem fornecido munições e tropas para a Rússia, que retribui com alimentos, combustível e tecnologia militar.

Rashevska é categórica ao analisar o movimento: "Para o regime de Kim Jong Un, esta é uma forma suave, socialmente aceitável de aprofundar a 'parceria estratégica' com a Rússia por meio da 'diplomacia infantil'". Ela acrescenta que, para a Rússia, a ação é útil porque as crianças "veem um país onde os direitos humanos e as liberdades são ainda piores".

O RCHR já documentou outros 165 alojamentos montados por Moscou para crianças ucranianas, a maioria localizados na própria Rússia e em Belarus.

Natureza do acampamento e análise de especialistas

Fundado em 1960, o Acampamento de Songdowon, perto da cidade portuária de Wonsan, foi originalmente concebido para receber crianças de estados do bloco comunista. Após a queda da União Soviética, tornou-se um local para filhos de altos funcionários norte-coreanos, reabrindo para estrangeiros com o reavivamento da amizade com Moscou.

Dan Pinkston, professor de relações internacionais da Troy University, que visitou o local em 2013, descreveu: "É um pouco como um acampamento de escoteiros, mas com a família Kim como foco". Para ele, o envio das crianças ucranianas pode ser um teste para observar os efeitos de uma doutrinação mais profunda. "Tudo faz parte da 'russificação' dessas crianças e acredito que veremos mais viagens desse tipo no futuro", disse Pinkston.

Outros analistas, como Andrei Lankov, professor da Universidade Kookmin de Seul, veem a ação puramente como propaganda. Ele descreveu a visita como "uma peça bastante descarada de manipulação".

Resposta internacional e próximos passos

Na semana passada, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução não vinculativa exigindo "que a Federação Russa assegure o retorno imediato, seguro e incondicional de todas as crianças ucranianas que foram transferidas ou deportadas à força". O texto também pede o fim de práticas como separação de famílias, adoção forçada e doutrinação.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia rejeitou as acusações, afirmando em comunicado que "quaisquer acusações de deportação de crianças ucranianas são totalmente infundadas e enganosas".

Kateryna Rashevska informou que as duas crianças já foram devolvidas à Ucrânia ocupada pela Rússia. Ela questiona a motivação por trás do ato: "Por que isso importa? Porque, nesse caso, a Rússia está essencialmente explorando nossas crianças ucranianas para sua propaganda. Elas são apresentadas como uma espécie de 'embaixadores russos'".