O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desencadeou a maior crise diplomática entre Washington e as potências europeias desde a Segunda Guerra Mundial ao expressar interesse em comprar a Groenlândia, território autônomo pertencente ao Reino da Dinamarca. A reação imediata de líderes como o presidente francês, Emmanuel Macron, foi de firme rejeição e mobilização militar simbólica para a região ártica.
A justificativa apresentada pela Casa Branca para a aquisição seria estratégica: estabelecer uma presença militar permanente para "defender o país de ataques inimigos". A proposta, considerada inédita no século XXI, foi recebida com incredulidade e indignação em Copenhague e nas capitais europeias.
Reação europeia evoca fantasmas do passado
Em resposta à movimentação norte-americana, a França enviou tropas para a Groenlândia em um gesto considerado de afirmação de soberania e alerta. Em discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, Emmanuel Macron fez um alerta velado, citando "valentões" e exigindo respeito às soberanias nacionais, em clara referência à postura de Trump.
Analistas políticos imediatamente traçaram paralelos históricos com a política de *appeasement* (apaciguamento) das potências europeias diante das expansões territoriais da Alemanha nazista de Adolf Hitler na década de 1930. "Trump elevou pouco a pouco a fervura da água sem que as nações até então aliadas dessem qualquer toque sobre os perigos", contextualiza a situação geopolítica.
Guerra comercial como retaliação
Como retaliação à resistência francesa, Donald Trump ameaçou impor sobretaxas sobre a importação de vinhos franceses para os Estados Unidos, transferindo o conflito para o campo da guerra comercial. A estratégia de pressionar aliados por meio de tarifas já havia sido usada anteriormente pelo governo republicano.
O Brasil já se posicionou contra a formação de um "clube de nações aliadas" proposto por Trump para fazer frente à ONU, assim como a França. A tentativa de criar uma nova instância de poder paralela às Nações Unidas é vista como um esforço para "desidratar" a organização multilateral.
Contexto de ações anteriores sem oposição
A reação europeia contundente contrasta com o silêncio observado em ocasiões anteriores. Quando Trump ordenou ações militares na América do Sul ou expandiu os poderes da Agência de Imigração e Alfândega (ICE) para perseguir imigrantes, a resposta das potências europeias foi considerada tímida, limitando-se a notas de repúdio.
Especialistas apontam que a virada ocorreu quando os interesses expansionistas de Trump chegaram perto da "vizinhança" europeia, tocando em um território vinculado a um de seus membros. A Groenlândia, maior ilha do mundo, possui importância geopolítica crescente devido ao degelo no Ártico e às novas rotas comerciais que se abrem.
Paralelo histórico direto com 1939
O discurso político europeu evocou explicitamente o estopim da Segunda Guerra Mundial. Em 1º de setembro de 1939, a invasão da Polônia pela Alemanha nazista, após uma série de anexações não contestadas (como a da Tchecoslováquia), fez com que Reino Unido e França declarassem guerra, iniciando o conflito global.
A tática usada por Hitler – um ataque de falsa bandeira a uma estação de rádio em Gleiwitz, na fronteira, por soldados alemães disfarçados de poloneses – foi justificada como legítima defesa. Agora, líderes europeus enxergam na retórica de "defesa" usada por Trump para justificar a compra da Groenlândia um eco perigoso dessa estratégia.
A crise atual permanece no campo diplomático e comercial, mas a mobilização militar francesa e a gravidade das acusações marcam um ponto de inflexão nas relações transatlânticas, com consequências ainda imprevisíveis para a ordem global estabelecida após 1945.