A União Europeia está considerando ativar um poderoso mecanismo de retaliação comercial, conhecido como "bazuca", caso o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, imponha novas tarifas alfandegárias sobre países europeus. A ameaça surge em resposta à proposta de Trump de aplicar uma tarifa adicional de 10% a oito nações do bloco que se opõem a um acordo para ceder o controle da Groenlândia aos EUA.
O presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu publicamente o uso do instrumento durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na terça-feira. "O mecanismo anti-coerção é um instrumento poderoso, e não devemos hesitar em implantá-lo no ambiente difícil de hoje", declarou Macron. A ferramenta, aprovada pela UE em 2023, permitiria ao bloco impor tarifas sobre importações e restringir a exportação de serviços dos Estados Unidos.
Alvo é o ponto forte da economia americana
A retaliação europeia teria um impacto significativo porque miraria o setor de serviços, área na qual os Estados Unidos mantêm uma grande vantagem comercial global. Enquanto o país tem um déficit comercial em bens, registra um superávit constante em serviços há cinco décadas, sendo o maior exportador mundial do setor.
Dados do Federal Reserve de St. Louis mostram que os EUA exportaram US$ 1,1 trilhão em serviços em 2024. O Bureau of Economic Analysis (BEA) aponta que, desse total, US$ 489 bilhões foram destinados à Europa no mesmo ano. Setores como tecnologia, farmacêutico e financeiro seriam os mais afetados por eventuais restrições.
Ameaça de Trump e reação em cadeia
Em um post na rede Truth Social, Trump ameaçou elevar para 25% as tarifas sobre os oito países europeus – Dinamarca, Alemanha, França e Reino Unido entre eles – em junho, caso não aceitem o acordo sobre a Groenlândia. "Esta tarifa será devida e pagável até que um acordo seja alcançado para a compra completa e total", escreveu o presidente americano.
Alex Durante, economista sênior da fundação apartidária Tax Foundation, classificou a situação como "território inexplorado" e alertou para os riscos à posição internacional dos EUA. "A América realmente perderia qualquer posição que ainda tem no mundo se fosse em frente e fizesse algo assim", disse Durante à Business Insider.
Box Explicativo: O que é a "bazuca" comercial da UE?O Regulamento Anti-Coerção da UE é uma ferramenta que permite ao bloco retaliar economicamente contra países terceiros que tentem forçar a tomada de decisão de um Estado-membro através de ameaças comerciais. Segundo um documento de perguntas e respostas da Comissão Europeia, o instrumento é "projetado para ser amplo" para permitir uma "resposta eficiente com impacto mínimo ou nenhum na economia da UE".
Consequências para empresas e consumidores
Alex Durante detalhou que a UE poderia restringir licenças de propriedade intelectual para empresas americanas e limitar o acesso de bancos dos EUA aos mercados europeus, aumentando custos domésticos. "Muitos desses setores, em termos das tarifas que Trump impôs, foram isolados disso por causa das isenções", observou o economista.
Se Trump seguir adiante com as tarifas, os consumidores americanos provavelmente arcariam com o custo. Um estudo recente do Instituto Kiel para a Economia Mundial, think tank alemão, analisou mais de 25 milhões de registros de embarque e concluiu que 96% das tarifas dos EUA foram pagas por consumidores americanos entre janeiro de 2024 e novembro de 2025.
Próximos passos e prazos
Caso a UE decida acionar o mecanismo, o processo levaria tempo. A Comissão Europeia teria quatro meses para examinar as alegações e até seis meses para determinar uma resposta apropriada. Paralelamente, a administração Trump aguarda uma decisão da Suprema Corte sobre a legalidade de muitas das tarifas do presidente, o que poderia limitar suas ferramentas para futuras ameaças comerciais.
O porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, afirmou à Business Insider que "a administração Trump cumpriu sua palavra" no acordo comercial com a UE deste ano e sugeriu que "o tempo da UE seria melhor gasto cumprindo esses compromissos comerciais".
Durante finalizou alertando para uma espiral perigosa: "Quando você tem esse tipo de política de 'toma-lá-dá-cá', os EUA ameaçam algo, a UE responde, e então nós ameaçamos algo ainda além, isso pode realmente sair do controle muito rápido e tornar os cidadãos tanto da UE quanto dos EUA piores."