Você já imaginou um campo de treinamento onde os alunos não são soldados, mas sim inteligências artificiais? Pois é exatamente isso que está acontecendo em uma base militar secreta na Califórnia.
Lá, veículos autônomos sobem e descem colinas íngremes, enfrentam curvas de terra solta e aprendem a navegar por trilhas esburacadas. Mas o objetivo final não é passear: é entrar em zonas de conflito e, futuramente, operar armas de forma autônoma.
O que é a Scout AI e por que ela acaba de receber US$ 100 milhões?
Fundada em 2024 por Coby Adcock e Collin Otis, a Scout AI se autodenomina um "laboratório de fronteira para a defesa". A startup anunciou nesta semana que levantou US$ 100 milhões em rodada Série A, liderada pela Align Ventures e Draper Associates — isso depois de uma rodada seed de US$ 15 milhões em janeiro de 2025.
O dinheiro será usado para treinar o modelo de IA chamado "Fury", que promete operar e comandar ativos militares. Primeiro, para suporte logístico. Depois, para armas autônomas.
"Os soldados começam quando têm 18 anos, às vezes depois da faculdade. Você quer começar com aquele nível básico de inteligência", explicou Otis ao TechCrunch. "É útil começar com alguém que já fez um investimento e então dizer: 'O que preciso fazer para ensinar essa coisa a ser uma AGI militar incrível, em vez de apenas uma AGI amplamente inteligente?'"
Dentro do bootcamp: como a IA aprende a dirigir (e lutar) em terrenos hostis
O TechCrunch teve acesso exclusivo ao centro de treinamento da Scout, em uma base militar cujo nome não foi revelado. Lá, a equipe de operações — liderada por ex-soldados — coloca os veículos em missões simuladas.
Eu mesmo dirigi um dos ATVs da Scout pelas trilhas acidentadas: subidas íngremes, areia solta nas curvas, trilhas que desapareciam, cruzamentos confusos. Não sou um piloto experiente, mas me virei bem. É exatamente esse tipo de inteligência geral que a empresa quer em seus modelos.
Depois, andei como passageiro sob controle autônomo. A diferença era nítida: o veículo acelerava mais rápido que um humano preocupado com o conforto do passageiro. Nas trilhas mais largas, ele mantinha a direita; nas estreitas, ficava no centro — exatamente como os motoristas de treinamento faziam. E quando ficava confuso, diminuía a velocidade de repente para pensar no próximo movimento.
A tecnologia por trás do "cérebro" militar
Diferente dos carros autônomos urbanos, que operam em ambientes estruturados com regras claras, operar fora de estrada é um desafio completamente diferente. Foi isso que motivou Otis, que trabalhava na empresa de caminhões autônomos Kodiak, a fundar a Scout.
A solução? Modelos de Ação e Linguagem Visual (VLAs), baseados em LLMs e usados para controlar robôs. A tecnologia foi lançada pelo Google DeepMind em 2023 e já gerou startups como Physical Intelligence e Figure.AI — esta última liderada pelo irmão de Adcock, Brett.
"Se eu te entregasse o controle de um drone agora e colocasse um headset em você, você aprenderia a pilotar aquilo em minutos", disse Otis. "Você está apenas aprendendo a conectar seu conhecimento prévio àqueles pequenos joysticks. Não é um grande salto. É assim que se pensa sobre VLAs e por que eles são um grande avanço."
Primeiro, o suporte logístico. Depois, as armas autônomas
As primeiras aplicações da tecnologia, segundo executivos da Scout, serão o reabastecimento automatizado: levar água ou munição para postos de observação distantes, ou em comboios onde um caminhão tripulado é seguido por seis a dez veículos autônomos.
Brian Mathwich, oficial de infantaria da ativa que atua como fellow militar na Scout, relembrou um exercício recente no Alasca onde liderou um comboio de reabastecimento na escuridão total e desejou ter veículos autônomos para ajudá-lo.
Mas a Scout não para por aí. A empresa também está trabalhando em drones de munição que voam com uma plataforma "quarterback" maior, que fornece mais recursos de computação para comandá-los. Em uma missão, os drones procurariam tanques inimigos escondidos em uma área geográfica e os atacariam — possivelmente sem intervenção humana.
O debate ético: armas que decidem quem atacar
Armas autônomas são um ponto crítico na política de tecnologia de defesa. Mas especialistas lembram que o conceito não é novo: mísseis teleguiados e minas terrestres são usados há décadas.
Jay Adams, capitão aposentado do Exército dos EUA que lidera a equipe de operações da Scout, explica que os drones de munição podem ser programados para atacar apenas ameaças em uma área geográfica específica, ou apenas com confirmação humana. E, diferentemente de um soldado de 18 anos, plataformas de armas autônomas dificilmente atirarão porque estão com medo.
Adams acredita que a promessa de drones que identificam seus próprios alvos é chave para o futuro da guerra: enquanto a invasão russa na Ucrânia gerou intenso interesse em drones, operar veículos não tripulados individualmente não escala o suficiente para enfrentar um grande número de sistemas não tripulados de baixo custo.
O futuro: AGI militar vs. AGI geral
Otis acredita que a Scout pode superar os líderes existentes na corrida pela AGI (Inteligência Artificial Geral), porque seu modelo estará constantemente interagindo com o mundo real.
"Há um argumento na comunidade AGI de que você só pode ficar tão inteligente lendo a internet, e a maior parte da inteligência vem da interação com o mundo", disse Otis.
Isso significa que Adcock está competindo com o exército de robôs humanoides do irmão na Figure? Não, diz Otis. Mas "podemos escalar muito mais rápido porque nosso cliente já tem os ativos", referindo-se ao Pentágono.
Enquanto isso, a Scout já garantiu contratos de desenvolvimento de tecnologia militar totalizando US$ 11 milhões com organizações como DARPA, o Laboratório de Aplicações do Exército e outros clientes do Departamento de Defesa. E é uma das 20 empresas de autonomia cuja tecnologia está sendo usada pela 1ª Divisão de Cavalaria do Exército dos EUA em seu ciclo regular de treinamento em Fort Hood, no Texas.
A pergunta que fica é: até onde essa inteligência artificial vai chegar — e quem vai controlar o gatilho?