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A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve assinar formalmente o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul neste fim de semana, após 25 anos de negociações. O pacto, que recebeu sinal verde da maioria dos líderes europeus na semana passada, promete ampliar mercados para produtos como automóveis e máquinas europeias e commodities agrícolas sul-americanas.

No entanto, organizações ambientais europeias criticam o acordo, argumentando que ele contradiz os compromissos climáticos do bloco e pode agravar a crise ambiental. A principal preocupação é o potencial aumento do desmatamento na América do Sul, impulsionado pela expansão da produção de carne bovina, soja, açúcar e aves para exportação.

Desmatamento e compromissos climáticos em risco

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Audrey Changoe, coordenadora de política comercial da Climate Action Network Europe, afirmou à DW que o acordo "basicamente vai contra os compromissos [climáticos] da UE". A especialista destacou que o bloco europeu é um dos maiores contribuintes globais para o desmatamento e tem a responsabilidade de não perpetuar essa destruição.

Embora o acordo inclua disposições para a implementação do Acordo de Paris e combate ao desmatamento, Changoe avalia que a redação não acrescenta nada de novo ao que já foi acordado em tratados internacionais. "É bonito no papel, mas, na prática, não significa que irá nos proteger de todos esses efeitos negativos", disse.

Contexto de redução no Brasil e ameaças a outros biomas

Dados oficiais mostram que o desmatamento na Amazônia brasileira entre agosto de 2024 e julho de 2025 teve redução de 11% em comparação com o período anterior, sendo a terceira menor área anual desde 1988. Apesar disso, o Brasil ainda foi responsável por quase metade da perda de florestas tropicais do mundo em 2024, segundo o World Resources Institute.

Além da Amazônia, biomas como o Cerrado e o Gran Chaco – que se estende por Argentina, Paraguai e Bolívia – estão ameaçados por um possível aumento da pecuária e da produção de soja. Essas regiões atuam como grandes sumidouros de carbono, absorvendo mais dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera do que emitem.

Pressão por padrões mais baixos e erosão regulatória

Patrizia Heidegger, vice-secretária-geral do European Environmental Bureau, alerta que o transporte de produtos pela metade do planeta já os torna insustentáveis. Ela critica a dependência de recursos explorados em outras regiões e defende que o foco da UE deveria ser garantir sua própria produção sustentável de alimentos.

Heidegger também destacou a "erosão de padrões e salvaguardas ambientais" na UE, impulsionada por uma narrativa política contra a regulamentação. Segundo ela, se produtores europeus forem expostos a concorrentes que não seguem os mesmos padrões ambientais, a pressão por regras mais brandas aumentará.

Economia circular e impacto nos pequenos produtores

O capítulo de Comércio e Desenvolvimento Sustentável do acordo menciona que a UE e os Estados do Mercosul devem "trabalhar juntos nos aspectos comerciais do consumo sustentável e da economia circular". No entanto, o Instituto para Política Ambiental Europeia critica a falta de disposições concretas sobre como apoiar esse modelo econômico.

O *think tank* de sustentabilidade também alerta que os esforços da UE para regular o acesso ao mercado com padrões rigorosos podem criar barreiras para pequenos atores em países de baixa e média renda, limitando os benefícios do acordo.

Próximos passos e fiscalização

Para entrar em vigor, o acordo ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu e ratificado por todos os Estados-membros da UE e do Mercosul. Especialistas afirmam que o cumprimento das promessas de sustentabilidade dependerá da capacidade de fiscalização, já que cláusulas ambientais em acordos comerciais geralmente não são juridicamente vinculativas.

Alguns analistas veem um potencial impacto positivo, com o acordo podendo apoiar o desenvolvimento de economias circulares em setores como silvicultura e agricultura regenerativa na América do Sul, como já observado em estratégias de bioeconomia na Argentina e no Uruguai.