Agentes de inteligência artificial estão transformando radicalmente o trabalho de engenheiros de software em empresas de tecnologia, assumindo tarefas de codificação e permitindo que equipes pequenas alcancem produtividade antes impensável. Em empresas como a Canva e a startup Cora, essas ferramentas, baseadas em modelos de linguagem avançados, executam instruções detalhadas e produzem código de forma autônoma, muitas vezes durante a noite, liberando os profissionais para funções mais estratégicas.
O fenômeno está criando uma parceria humano-IA, fase que Dario Amodei, CEO da Anthropic, chamou de "fase centauro" da indústria. A mudança, que começou no setor de software, tem potencial para impactar outras áreas profissionais, conforme alertam especialistas do setor.
Produtividade "sem precedentes" com equipes enxutas
Na startup Cora, fundada há um ano, os agentes de IA escreveram todo o código utilizado pela empresa, um feito considerado impossível antes de 2024. Jesal Gadhia, cofundador e diretor de tecnologia da empresa, disse à Business Insider que a equipe de seis pessoas produziu volumes "sem precedentes" de código em seus primeiros 12 meses. "Há cinco anos, atingir o mesmo nível de produtividade exigiria de 20 a 30 engenheiros", afirmou Gadhia.
Na Canva, gigante do design gráfico, as equipes de engenharia redigem instruções para os agentes de IA executarem em segundo plano. Brendan Humphreys, diretor de tecnologia da Canva, relatou que, frequentemente, o trabalho está pronto pela manhã. "Muitas vezes, esses resultados são realmente impressionantes", disse, acrescentando que as ferramentas entregam "horas e horas de trabalho feito de forma completamente autônoma".
Novo perfil do engenheiro: de codificador para revisor e arquiteto
Com a automação de tarefas de codificação, a função do engenheiro de software está mudando. Humphreys destacou que seus engenheiros seniores agora descrevem seus empregos como "basicamente de revisão" – checando a produção da IA, direcionando um ou mais agentes para seguir um plano e assumindo a responsabilidade pelo produto final.
Gadhia compara a IA a uma máquina de escrever: ela gera o código, permitindo que os engenheiros se concentrem em "arquitetura estratégica de alto nível", reuniões com clientes e brainstorming de funcionalidades. A mudança também reduz barreiras técnicas. O CEO da Cora, que não tem formação técnica, pediu recentemente a um agente para alterar a fonte do site da empresa durante um redesign. Minutos depois, após a revisão de um engenheiro, o site foi atualizado.
Desafios e o futuro do trabalho com IA
Apesar do avanço, desafios como alucinações (respostas incorretas ou inventadas pela IA) persistem. Muqsit Ashraf, diretor-executivo de estratégia da Accenture, observa que muitas empresas ainda estão descobrindo como integrar a IA nos fluxos de trabalho, como os trabalhadores devem validar sua produção e como as organizações precisam se adaptar. "Tecnologia por tecnologia não ajuda", afirmou Ashraf.
Pesquisas da Accenture no final de 2025 com líderes e trabalhadores de 20 países revelaram que menos de 10% das organizações redesenharam empregos para apoiar a adoção de IA. Esse dado contrasta com o aumento no uso de agentes: 31% das organizações os utilizavam em múltiplas funções, ante 27% em meados de 2025.
Alex Salazar, cofundador e CEO da startup de infraestrutura de IA Arcade, aconselha tratar os agentes como funcionários juniores: dizer à IA o que fazer, fornecer os critérios de sucesso e, se possível, dar exemplos. "Faça essas três coisas e 'a IA cantará para você'", disse Salazar, que descreve a mudança no local de trabalho de forma direta: a IA está "melhorando em um ritmo exponencial. E você, como humano, não está".