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O Brasil adota uma postura de "não alinhamento ativo" para preservar sua autonomia frente à crescente rivalidade entre Estados Unidos e China, segundo análise do ex-embaixador Cesário Melantonio Neto. A estratégia recusa a lógica binária de alinhamento com um polo ou outro, priorizando uma posição de equilíbrio pragmático. O diplomata, que serviu em países como Irã, Turquia, Egito, Azerbaijão, Grécia e Cuba, avalia que essa margem de manobra, embora estreita, é essencial para os interesses nacionais.

Multipolaridade como oportunidade estratégica

Para o Brasil, a multipolaridade representa uma oportunidade de diversificar parcerias, minimizar riscos e ampliar sua capacidade de diálogo internacional. "O Brasil vê na multipolaridade uma oportunidade de diversificar e minimizar riscos e ampliar a sua capacidade de diálogo, mantendo ações abertas com ambos os lados", explicou Melantonio Neto. Entretanto, ele ressalta que esse caminho exige um "refinamento constante" da diplomacia, pois coloca o país entre expectativas divergentes.

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De um lado, Washington espera uma reafirmação do pertencimento do Brasil à ordem ocidental. Do outro, a China consolida-se há mais de uma década como o principal parceiro comercial brasileiro, com presença estratégica em setores-chave da economia nacional. Este duplo vínculo define o cenário complexo no qual a política externa brasileira deve se mover.

O desafio de equilibrar atuação nos BRICS

A participação do Brasil nos BRICS é citada como um exemplo desse desafio de equilíbrio. "Nesse cenário a nossa participação nos Brics é também um desafio de equilíbrio para não desagradar as duas potências rivais", afirmou o ex-embaixador. No entanto, abandonar o bloco e o Sul Global não é uma opção, pois são "plataformas de relevo para a nossa Diplomacia".

Para Melantonio Neto, tanto os BRICS quanto outras instâncias do multilateralismo funcionam como "uma espécie de norte estratégico para a ação diplomática brasileira". Ele defende que esses espaços permitem ao país construir "coalizões flexíveis e funcionais com base em interesses convergentes e não necessariamente em identidades geopolíticas fixas", contrapondo-se a pretensões hegemônicas.

Firmeza pragmática e defesa de valores

O diplomata critica o que chama de "retorno de Washington à doutrina Monroe", com pressões por alinhamento automático e políticas protecionistas. Tais posturas, segundo ele, "não são do nosso interesse nacional e afetam a defesa da soberania nacional, que não pode ser negociável". A resposta brasileira, portanto, deve ser uma atitude "firme, mas pragmática", linha que ele afirma ter sido seguida nos últimos três anos.

Por fim, Melantonio Neto destaca que a defesa da democracia, do Estado de Direito, dos direitos humanos e das minorias étnicas deve ser prioritária na agenda internacional do Brasil. Esses valores integram o soft power nacional, sendo fundamentais para construir "credibilidade e respeito no sistema multilateral".