A atriz e ativista francesa Brigitte Bardot, falecida recentemente, é mundialmente lembrada como um ícone do cinema e uma defensora incansável dos animais. No entanto, sua vida pessoal revela uma contradição marcante: enquanto dedicava afeto e recursos à proteção animal, ela rejeitou publicamente a maternidade e se afastou do próprio filho, Nicolas.
Bardot, que criou uma fundação e financiou abrigos para animais, enfrentando governos e denunciando maus-tratos, optou por não criar seu único filho. Ela entregou a criança ao pai, que por sua vez a deixou aos cuidados dos avós. A atriz nunca romantizou a maternidade, declarando em sua autobiografia que não queria ser mãe e que a gravidez foi um trauma.
Contraste entre o afeto público e o distanciamento privado
O núcleo da contradição está no contraste simbólico. Bardot canalizou décadas de militância, atenção e carinho para a causa animal, enquanto manteve um distanciamento emocional profundo em relação ao filho. Em suas memórias, ela chegou a comparar a experiência da gravidez a um "tumor".
"A mesma mulher que se dedicou a salvar vidas escolheu negar vínculo à vida que gerou", analisa o colunista Oscar Filho, em texto para o iG. A análise aponta que a adoração incondicional pelos animais pode estar ligada à ausência de cobranças e julgamentos que relações humanas complexas, como a maternidade, inevitavelmente trazem.
Uma coerência pessoal que gera questionamentos
Especialistas em comportamento destacam que Bardot foi coerente com seu discurso de rejeição à maternidade, nunca tendo fingido aceitá-la. O questionamento, portanto, não é moral, mas humano e filosófico, levantando debates sobre a assimetria afetiva e as possíveis contradições inerentes a figuras públicas idolatradas.
A história de Brigitte Bardot serve como um lembrete de que ícones, por maiores que sejam suas contribuições em certas áreas, permanecem humanos com falhas e escolhas complexas. Seu legado na defesa dos animais é inegável, mas sua decisão pessoal em relação à família continua a ser um ponto de reflexão sobre a natureza multifacetada da admiração pública.