A campanha publicitária da marca Havaianas para 2026, estrelada pela atriz Fernanda Torres, gerou uma intensa reação política nas redes sociais. O comercial, que ironiza o simbolismo de "começar o ano com o pé direito", foi amplamente interpretado por apoiadores da direita brasileira como uma crítica velada a seus valores, levando a uma onda de indignação online.
O vídeo, publicado pelo humorista e colunista Oscar Filho, que também comentou o caso, viralizou e dividiu opiniões. Enquanto parte do público considerou a peça um simples trocadilho, outra parte a leu como um posicionamento ideológico intencional da marca, exemplificando a dificuldade atual de separar linguagem cotidiana de disputas políticas.
O texto no centro da controvérsia
O texto do comercial, narrado por Fernanda Torres, diz: “Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não é nada contra a sorte, mas vamos combinar. Sorte não depende de você, né? Depende de sorte. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca. Os dois pés onde você quiser. Vai com tudo. De corpo e alma, da cabeça aos pés.”
A mensagem, que em sua leitura literal prega equilíbrio e ação ("começar com os dois pés"), foi rapidamente associada ao espectro político. Para muitos críticos, a menção a não começar com o "pé direito" seria uma metáfora para rejeitar a ideologia de direita.
Análise e reação em cadeia
Oscar Filho, ao comentar o caso em um vídeo de humor, usou a frase “Um trocadilho que nem ficou claro se foi de propósito”. A declaração foi recebida com fúria por parte dos internautas, que o acusaram de ser "burro e inocente" ou "comprado e cínico". O humorista, então, partiu para uma análise mais séria do episódio em sua coluna no portal iG.
Em seu texto, Filho argumenta que, mesmo assumindo que a dupla interpretação foi intencional, a campanha não ataca a direita, mas propõe um equilíbrio simbólico. "Ele diz algo simples: comece inteiro, equilibrado. Nem só um, nem só outro. Os dois!", escreveu. Ele utiliza conceitos da semiótica, citando o teórico Umberto Eco, para explicar como signos comuns, como "pé direito", podem ser carregados de novos significados políticos conforme o contexto social.
Um sintoma da polarização
O episódio é analisado por Filho menos como uma polêmica sobre marketing e mais como um reflexo do momento político brasileiro. "O episódio revela menos sobre a Havaianas ou sobre a Fernanda Torres e mais sobre o momento em que vivemos: símbolos valem mais do que frases e identidade pesa mais do que intenção", pontua o colunista.
Ele conclui que "direita e esquerda deixaram de ser ideias para virar gatilhos emocionais", e que a campanha foi lida como metáfora porque parte do público "já não consegue separar linguagem de ideologia". A reação automática ao comercial ilustra, na visão dele, a dificuldade de interpretar mensagens que não se alinham claramente a um dos lados do espectro político.
Próximos passos e contexto
Até o momento, nem a Havaianas nem Fernanda Torres se pronunciaram oficialmente sobre a interpretação política da campanha. A peça continua no ar, focando em sua mensagem original de motivação para o novo ano.
O caso ocorre em um cenário de pré-campanha para as eleições de 2026, onde a polarização e a leitura ideológica de gestos e falas públicas tendem a se intensificar. Especialistas em comunicação política avaliam que episódios como este devem se tornar mais frequentes, demandando um novo cuidado das marcas com a potencial politização de seus símbolos e narrativas.