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A rede de restaurantes Chipotle Mexican Grill registrou formalmente a criação de um Comitê de Ação Política (PAC, na sigla em inglês) junto à Comissão Eleitoral Federal dos Estados Unidos no início deste mês. O movimento marca uma mudança significativa na forma como a cadeia de *fast-casual*, conhecida por seus burritos, passa a se engajar na política americana, adotando uma postura mais proativa e estruturada às vésperas das competitivas eleições de meio de mandato de 2026.

Um PAC corporativo é um veículo legal que permite que empresas coletem doações políticas voluntárias de funcionários e executivos para, então, repassar esses recursos a candidatos federais. A decisão representa uma guinada em relação à política anterior da empresa, que afirmava em documentos de 2021 e 2024 não operar um PAC, embora deixasse a possibilidade em aberto para o futuro.

Estratégia em um cenário eleitoral acirrado

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O timing do anúncio é considerado estratégico por especialistas. "Quando as eleições são fortemente disputadas, elas tendem a custar mais dinheiro", explicou Ciara Torres-Spelliscy, professora de direito da Stetson University College of Law e *fellow* do Brennan Center, à Business Insider. Com redistritamentos ocorrendo em vários estados, as eleições de 2026 prometem ser imprevisíveis e caras, aumentando a demanda dos candidatos por financiamento.

Para a empresa, o PAC é uma ferramenta de influência mais direta. "Em vez de apenas fazer *lobby*, um PAC permite que uma empresa influencie diretamente a eleição de funcionários, garantindo que os legisladores entendam os interesses comerciais específicos da empresa", afirmou Anat Alon-Beck, professora assistente da Case Western Reserve University School of Law.

Uma voz para 130 mil funcionários

A justificativa oficial da Chipotle enfatiza a representatividade. "À medida que o Congresso debate questões críticas em 2026, o PAC é uma maneira significativa de dar aos nossos 130.000 funcionários uma voz no processo político que impacta suas vidas, comunidades e nosso negócio, no dia a dia", disse Laurie Schalow, Diretora de Assuntos Corporativos da empresa.

Embora PACs corporativos sejam comuns em diversos setores, as redes de restaurantes historicamente têm um papel menor no financiamento de campanhas federais. Grupos comerciais, como a Associação Nacional de Cervejeiros, e empresas como a American Crystal Sugar são atores mais tradicionais no espaço alimentício. A criação do PAC pela Chipotle, portanto, sinaliza mais uma mudança de postura do que a adesão a uma força política dominante.

Doações anteriores e o novo caminho

Antes de formar seu próprio PAC, a Chipotle já fazia contribuições políticas por meio de sua empresa. Relatórios de contribuições para assuntos governamentais mostram que, em 2023 e 2024, a companhia doou US$ 50.000 para as associações de governadores Democratas e Republicanas, US$ 25.000 para a Associação de Prefeitos Democratas e contribuições anuais de US$ 150.000 para a Associação Nacional de Restaurantes.

Além disso, a empresa destinou US$ 625.000 em 2024 e US$ 408.000 em 2023 para a "Save Local Restaurants", uma coalizão liderada pela associação do setor para fazer *lobby* por legislação favorável aos restaurantes. A Associação Nacional de Restaurantes possui seu próprio PAC, que historicamente doou principalmente para candidatos republicanos, de acordo com dados do OpenSecrets.

Transparência e limites legais

Os PACs corporativos, formalmente conhecidos como "fundos segregados separados" pela lei federal, existem porque as corporações têm proibição de doar dinheiro de seus próprios cofres diretamente para candidatos federais – uma regra que remonta ao Ato Tillman de 1907. Para contornar essa proibição, as empresas solicitam doações de pessoas associadas à companhia, tipicamente executivos, de até US$ 5.000 para o PAC corporativo.

Esse dinheiro pode então ser doado diretamente aos candidatos dentro dos limites de contribuição federal: US$ 5.000 por candidato por eleição, se o PAC contribuir para pelo menos cinco candidatos, ou um máximo de US$ 3.500 se apoiar menos de cinco. Uma vantagem citada por Torres-Spelliscy é a transparência: "Todos que doam sabem que o dinheiro está indo para a política, e o público pode ver quem deu para o PAC corporativo e para quem o PAC corporativo doou dinheiro".

O que esperar do novo PAC

Ainda não está claro quão ativo será o novo PAC da Chipotle ou quais candidatos ele apoiará. A empresa não apresentou, até o momento da publicação da reportagem original, um registro para formar um *Super PAC*, que permite doações ilimitadas, inclusive de tesouraria corporativa, mas opera de forma independente dos candidatos, sem poder coordenar com as campanhas.

O movimento da Chipotle, portanto, aponta para um desejo de um relacionamento mais direto e estruturado com os legisladores em um momento em que o controle do Congresso estará em disputa. A estratégia coloca a rede no tabuleiro do financiamento político de campanha, um campo onde marcas de consumo como a sua tradicionalmente atuavam com mais discrição.