Desenvolvedor desiste de megaprojeto de data center em cidade dos EUA após revolta popular que juntou 25 mil assinaturas
Moradores de Nottingham, New Hampshire, conseguiram barrar um plano de construção que prometia transformar a pacata região rural em um polo industrial de servidores
Você já imaginou acordar um dia e descobrir que sua cidade tranquila, cercada por florestas e lagos, pode se tornar o próximo epicentro da corrida tecnológica global? Foi exatamente esse pesadelo que os moradores de Nottingham, uma pequena cidade de pouco mais de 5.300 habitantes em New Hampshire, enfrentaram nas últimas semanas.
Horas antes de uma reunião pública que precisou ser transferida para um local maior devido à enorme comoção, o desenvolvedor Thomas Moulton, por trás do projeto Nottingham Business Park LLC, simplesmente retirou os planos. A vitória, no entanto, não foi um acaso: ela foi conquistada a duras penas por uma comunidade que se uniu como nunca.
O estopim: um projeto que prometia mudar tudo
A proposta era ambiciosa e, para muitos, assustadora. Um data center de grande porte, daqueles que abrigam milhares de servidores para alimentar a inteligência artificial e a nuvem das big techs. Mas, para os locais, a promessa de desenvolvimento econômico veio acompanhada de um preço que eles não estavam dispostos a pagar.
Em questão de dias, um abaixo-assinado no Change.org contra o projeto explodiu, acumulando mais de 25 mil assinaturas. Um número que, em proporção, equivale a quase cinco vezes a população total da cidade. A mensagem era clara: "Não aqui".
"Foi uma surpresa ver tanta oposição, mas também foi bom ver a comunidade se unindo e se importando com o próprio quintal", disse Tracey Stickney, coordenadora do departamento de planejamento de Nottingham, ao Business Insider.
O medo real por trás da revolta
O que levou tanta gente às ruas? Não foi apenas a "chatice" de uma obra. Os moradores temiam impactos reais e imediatos no seu dia a dia. O barulho ensurdecedor dos geradores, o consumo de água em uma região que já enfrenta secas severas há anos e a transformação de uma paisagem bucólica em um corredor industrial.
Brad Weit, um morador local que iniciou a petição, resumiu o sentimento de muitos: "Eu cresci caçando e pescando nessas matas. Eu cresci nos lagos e rios. Eu valorizo a beleza de New Hampshire e quero mantê-la, especialmente em uma cidade pequena como Nottingham, que não é nada industrial".
Ele completou, com um tom de incredulidade: "New Hampshire já está em seca severa há anos. Me surpreendeu completamente que, de todos os lugares que li sobre esses projetos, Nottingham fosse o próximo".
A resposta do desenvolvedor: 'ameaças de morte e desinformação'
Do outro lado da trincheira, Thomas Moulton se defendeu. Em uma declaração, ele afirmou que o projeto foi consumido por "equívocos e desinformação", incluindo alegações online de que o prédio teria 40 acres — quando, na verdade, a construção proposta seria de apenas 4 acres.
"Acho que a maior questão são as preocupações ambientais", disse Moulton, citando os medos de poluição sonora e da água. "Se reunirmos informações verdadeiras e precisas e as apresentarmos de forma justa e transparente, que cada um tire suas conclusões. Se eles não quiserem, não querem."
O desenvolvedor argumentou que o projeto poderia ter sido um "bilhete de loteria" para os cofres da cidade, gerando uma receita fiscal milionária. Mas, na terça-feira, ele decidiu que era melhor recuar temporariamente do que enfrentar a onda de ódio, que, segundo ele, incluiu ameaças contra a sua vida.
"Eu não sou um cara de Nova York tentando fazer um empreendimento imobiliário de forma irresponsável", desabafou Moulton. "Eu moro na comunidade, quero fazer a coisa certa."
O que isso significa para o futuro da tecnologia?
A batalha em Nottingham não é um caso isolado. Ela é a ponta do iceberg de um movimento crescente nos Estados Unidos. De Virginia à Geórgia e Texas, comunidades inteiras estão se levantando contra a expansão desenfreada dos data centers.
O motivo? Esses gigantes digitais consomem uma quantidade brutal de eletricidade, exigem água para resfriamento em meio a crises hídricas e transformam o silêncio do campo no zumbido constante da era digital. Para os moradores, a pergunta que ficou no ar é: até onde a tecnologia pode invadir nossas vidas antes que a gente diga "basta"?
Para Weit, a vitória é doce, mas a luta não acabou. "Alguém vai fazer isso de qualquer jeito", reconheceu Moulton, sobre a demanda crescente por infraestrutura de dados. "Estou apenas tentando planejar e ver se isso pode ser algo para o futuro do estado e da comunidade."
O recado de Nottingham, no entanto, já ecoou alto: em uma cidade pequena, a voz da comunidade ainda pode ser mais alta que o zumbido dos servidores.
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