A economia dos Estados Unidos registrou um crescimento de 2,2% no ano de 2025, um ritmo considerado respeitável, embora mais moderado que nos anos anteriores. O desempenho foi impactado pelo prolongado shutdown governamental no outono, pelas incertezas comerciais e por novos investimentos. Contudo, em paralelo, o país criou apenas 181 mil vagas de trabalho no período, o menor número anual desde 2003 fora de períodos de recessão.
Essa desconexão entre um Produto Interno Bruto (PIB) forte e um mercado de trabalho praticamente estagnado está aprofundando as desigualdades, em um fenômeno que alguns economistas chamam de "economia em K". Enquanto os mais ricos se beneficiam da valorização de ativos e de salários mais altos, a maior parte da população enfrenta crescimento salarial próximo de zero e maior dificuldade para encontrar emprego.
Especialistas apontam para um "divórcio" preocupante
Economistas destacam a natureza atípica da situação atual. "Estamos nesse ambiente incomum onde a atividade econômica permaneceu bastante robusta e, no entanto, os ganhos de empregos caíram para quase zero", afirmou Gregory Daco, economista-chefe da EY, em entrevista ao Business Insider. Para ele, a força do PIB está "mascarando uma crescente bifurcação" na economia.
Mohamed El-Erian, em artigo de opinião para o Financial Times, observou que, embora esse "desacoplamento do crescimento do emprego em relação ao crescimento econômico" já tenha ocorrido antes nos EUA, normalmente acontecia durante recuperações de recessão e "não no meio de um período prolongado de crescimento robusto como o que estamos experimentando hoje".
Desigualdade se amplia com inflação e estresse no crédito
Os benefícios do crescimento têm sido desproporcionais. Atsi Sheth, diretora de crédito da Moody's Ratings, explicou que quem tem renda proveniente de investimentos e ganhos de capital foi muito mais beneficiado pelos booms do mercado financeiro. "Aqueles que ganham sua renda principalmente por salários se beneficiaram um pouco, mas não tanto", disse ela.
A inflação, chamada por Diane Swonk, economista-chefe da KPMG, de "o imposto mais regressivo", penaliza fortemente as famílias de baixa renda, que destinam grande parte de seus ganhos a itens essenciais. Um relatório do Federal Reserve Bank de Nova York mostrou que, desde 2023, o consumo ajustado pela inflação aumentou para famílias de alta renda, mas tem caído para as de baixa renda.
Sheth também alertou para maior estresse de crédito na base da pirâmide, citando empréstimos para compra de carros na faixa subprime como exemplo.
Papel da Inteligência Artificial e cenário futuro incerto
Investimentos em Inteligência Artificial (IA) já impactaram positivamente o crescimento do PIB real, segundo o Federal Reserve Bank de St. Louis, e devem continuar sendo um motor de investimento. No entanto, sua integração nas operações das empresas gera incertezas sobre a demanda futura por mão de obra.
Laura Ullrich, diretora de pesquisa econômica do Indeed Hiring Lab, descreveu um "equilíbrio precário" e questionou se as empresas optarão por contratar mais ou por cortar postos. "Se a IA for capaz de assumir o trabalho dos humanos, poderíamos ver crescimento econômico sem que as contratações aumentem muito", ponderou.
Alguns analistas mantêm otimismo cauteloso para 2026, citando possíveis investimentos empresariais e consumo. Entretanto, o próprio Federal Reserve, em atas de sua reunião de janeiro, reconheceu que a perspectiva para o mercado de trabalho permanece incerta. Como resumiu Jed Kolko, do Peterson Institute for International Economics, "pode não haver uma solução rápida" para o atual cenário.