Entidades médicas dos EUA rejeitam mudanças em calendário de vacinação propostas por governo
Associações médicas e especialistas em saúde pública alertam para risco de desconfiança e confusão gerados por novas diretrizes.
Principais entidades médicas dos Estados Unidos, incluindo a Associação Médica Americana (AMA) e a Academia Americana de Pediatria, estão em conflito aberto com as novas recomendações sobre vacinação emitidas pelo Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização (Acip), painel federal reformulado em 2025 pelo secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. As mudanças, vistas com ceticismo pela comunidade científica, incluem tornar opcional a vacina contra hepatite B para recém-nascidos e separar a aplicação da vacina MMRV.
As 44 entidades signatárias de uma declaração conjunta de protesto afirmam que as alterações não são baseadas em novas evidências científicas e podem semear desconfiança pública. "É confuso, é complicado", afirmou Jodie Guest, especialista em doenças infecciosas da Universidade Emory. Normalmente, as diretrizes do Acip são implementadas pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e seguidas pelos estados e seguradoras.
Processo considerado "fora dos trilhos"
Especialistas apontam uma mudança radical no processo de tomada de decisão do Acip sob a nova gestão. Josh Sharfstein, ex-secretário de Saúde de Maryland e especialista da Universidade Johns Hopkins, declarou que "as tomadas de decisão sobre vacinas perderam a integridade". Segundo ele, cientistas não fazem mais apresentações aos consultores, que agora são informados por representantes legais com histórico de questionamentos sobre a precisão de suas declarações.
"É mais do que apenas uma conclusão diferente, é um processo completamente diferente", disse Sharfstein. "É um processo que saiu dos trilhos." O contexto por trás das mudanças está ligado à visão há muito defendida por Kennedy de que algumas vacinas causariam autismo, uma alegação repetidamente refutada por grandes estudos populacionais e por um comitê de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) em dezembro de 2025.
Reação dos estados e impacto na credibilidade
Diante das novas diretrizes, cerca de uma dúzia de estados americanos liderados por democratas anunciaram que rejeitarão quaisquer mudanças no calendário de vacinação. As seguradoras de saúde também afirmaram que continuarão a cobrir a vacinação contra hepatite B ao nascer. Uma pesquisa do Annenberg Public Policy Center revelou que os adultos americanos estão duas vezes mais propensos a seguir o conselho da AMA do que o do CDC.
James Campbell, vice-presidente do comitê de doenças infecciosas da Academia Americana de Pediatria, classificou as reuniões do Acip como "uma tentativa descarada de semear medo e desconfiança em vacinas que salvaram inúmeras vidas". A reação da comunidade médica é vista como uma tentativa de mitigar mudanças consideradas inadequadas, mas especialistas temem que o conflito de mensagens gere confusão pública.
Papel global dos EUA em declínio e consequências
O conflito interno e as mudanças nas agências federais de saúde dos EUA estão minando o papel tradicional do país como líder global em saúde pública. Muitas nações basearam seus próprios comitês e agências nos modelos americanos. "Não sei se outros países deveriam seguir a liderança dos Estados Unidos nessas decisões, e isso é lamentável", disse Jodie Guest.
As consequências já são visíveis nos Estados Unidos. Sharfstein alerta que a hesitação vacinal pode fazer o país perder seu status de "livre de sarampo". Em 2025, foram registrados 1.935 casos de sarampo, um aumento drástico em relação aos 285 de 2024 e aos 59 de 2023. Enquanto isso, especialistas como Jason Schwartz, da Universidade de Yale, apontam o médico de família como a "retaguarda" para esclarecer dúvidas da população em meio à crise de credibilidade.
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