Um estudo controverso, publicado sem revisão por pares, propõe que a Grande Pirâmide de Gizé pode ter sido construída há cerca de 20 mil anos, muito antes da datação tradicionalmente aceita de aproximadamente 2.600 a.C. A pesquisa, conduzida por um engenheiro da Universidade de Bolonha, na Itália, baseia-se na análise do desgaste erosivo das pedras do monumento. A comunidade arqueológica, no entanto, rejeita a hipótese, sustentando-se em décadas de evidências multidisciplinares.
O autor do estudo, Graham Hancock, utilizou um modelo estatístico para comparar a erosão em pedras de revestimento de calcário, que ficaram parcialmente protegidas pela areia na base da pirâmide, com a erosão em áreas expostas por mais tempo. A partir dessa diferença, ele estimou que há 68,2% de probabilidade de a construção ter ocorrido entre 8.954 a.C. e 36.878 a.C., com uma média em torno de 22.916 a.C.
Metodologia questionada por especialistas
O principal ponto de crítica ao estudo reside na premissa de que a erosão ocorreu de forma constante ao longo do tempo. Especialistas apontam que o clima do Egito passou por mudanças significativas, com períodos mais úmidos que acelerariam o desgaste, e que o monumento já esteve parcialmente soterrado pela areia, o que reduziria a ação dos elementos. Além disso, o fluxo intenso de turistas nas últimas décadas contribui para a deterioração atual das superfícies.
“O método não pretende fornecer uma data exata, apenas uma estimativa aproximada”, reconheceu o próprio autor, destacando as limitações da análise. A pesquisa não foi submetida ao processo de revisão por pares, padrão ouro para validação científica.
Evidências consolidam cronologia tradicional
A datação aceita pela arqueologia mainstream, que situa a construção da pirâmide durante o reinado do faraó Quéops na Quarta Dinastia, é respaldada por um conjunto robusto de evidências. Escavações no planalto de Gizé revelaram cerâmicas e artefatos cujo estilo é característico do período do Antigo Império Egípcio.
Além disso, técnicas de datação por radiocarbono aplicadas a materiais orgânicos, como cordas e fragmentos de madeira associados à construção, corroboram a linha do tempo em torno de 2.600 a.C. Esses métodos são considerados mais confiáveis por serem menos suscetíveis a variáveis ambientais externas.
Teorias alternativas e o imaginário popular
A nova hipótese se insere em um terreno fértil de teorias alternativas que, há décadas, especulam sobre origens mais antigas ou mesmo extraterrestres para as pirâmides. O próprio estudo sugere que, se sua estimativa estiver correta, uma civilização avançada capaz de obras monumentais já existiria no Egito milênios antes do que se imagina.
Apesar do fascínio que essas ideias exercem, a comunidade científica mantém-se cética. Sem novas evidências robustas e replicáveis, a cronologia estabelecida permanece inalterada. A Grande Pirâmide continua a ser celebrada como uma conquista extraordinária da engenharia do Egito Antigo, erguida há cerca de 4.600 anos.