Um estudo publicado na Harvard Business Review revela que a adoção de inteligência artificial (IA) em empresas de tecnologia está levando a um aumento do burnout entre os funcionários, e não à redução da jornada de trabalho como se esperava. A pesquisa, conduzida por acadêmicos da Universidade da Califórnia em Berkeley, acompanhou por oito meses uma empresa de tecnologia com 200 funcionários.
Os pesquisadores realizaram mais de 40 entrevistas em profundidade e observaram que, mesmo sem pressão explícita da liderança, os colaboradores começaram a trabalhar mais horas porque as ferramentas de IA tornaram mais tarefas possíveis. O trabalho passou a invadir horários de almoço e noites, com listas de afazeres se expandindo para preencher todo o tempo que a IA liberou.
Expectativas triplicam com ganho real de 10%
Um engenheiro entrevistado resumiu a contradição: "Você tinha pensado que talvez, oh, porque você poderia ser mais produtivo com IA, então você economizaria algum tempo, poderia trabalhar menos. Mas na realidade, você não trabalha menos. Você apenas trabalha a mesma quantidade ou até mais". O sentimento é ecoado em fóruns da indústria, como o Hacker News, onde um comentarista relatou que, desde a adoção massiva de IA, as expectativas e o estresse de sua equipe triplicaram, enquanto a produtividade real aumentou apenas cerca de 10%.
Os pesquisadores concluem que a ampliação das capacidades individuais levou a "fadiga, burnout e uma sensação crescente de que o trabalho é mais difícil de deixar", especialmente à medida que as expectativas organizacionais por velocidade e resposta aumentam.
Estudos anteriores já apontavam discrepância
As novas descobertas dialogam com pesquisas anteriores. Um teste do verão passado (2024) mostrou que desenvolvedores experientes usando ferramentas de IA levaram 19% mais tempo para concluir tarefas, embora acreditassem ser 20% mais rápidos. Paralelamente, um estudo do National Bureau of Economic Research (NBER) que rastreou a adoção de IA em milhares de locais de trabalho descobriu que os ganhos de produtividade equivaleram a uma economia de tempo de apenas 3%, sem impacto significativo nos rendimentos ou horas trabalhadas em qualquer ocupação.
O estudo atual se diferencia por não questionar a premissa de que a IA pode aumentar o que os funcionários conseguem fazer – ele a confirma e, então, demonstra as consequências dessa amplificação para a saúde mental dos trabalhadores.
Narrativa da indústria versus realidade do trabalho
A narrativa predominante vendida pela indústria nos últimos três anos é que a IA atuaria como um multiplicador de força, tornando profissionais mais capazes e permitindo que trabalhassem menos. No entanto, a pesquisa de Berkeley sugere que as empresas correm o risco de se tornar "máquinas de burnout" quando essa ferramenta é genuinamente abraçada pelos times.
O artigo na Harvard Business Review, descrito como parte de uma "pesquisa em andamento", levanta um alerta sobre os modelos de gestão e expectativas que acompanham a implementação de novas tecnologias, indicando que a busca por produtividade pode ter um custo humano não previsto.