Os Estados Unidos não possuem as armas e ferramentas adequadas para detectar ameaças de forma confiável e responder a elas rapidamente no Ártico, cenário considerado potencial para futuros conflitos. A constatação, apresentada em relatório do Instituto Hudson, aponta que as deficiências em monitoramento e sustentação logística transformam a região em um corredor vulnerável para ataques não detectados.
O ambiente ártico, com suas vastas distâncias, temperaturas congelantes e infraestrutura limitada, representa um desafio logístico e operacional único para as forças militares. Com a crescente competição com rivais como Rússia e China na área, a preocupação com a prontidão dos EUA tem aumentado entre especialistas e oficiais.
Deficiências Estratégicas e Alertas Presidenciais
As lacunas na defesa do Ártico foram um dos elementos por trás do interesse do ex-presidente Donald Trump na aquisição da Groenlândia, relacionado ao projeto de defesa antimísseis "Golden Dome". "Se houver uma guerra, grande parte da ação ocorrerá naquele pedaço de gelo", afirmou Trump no Fórum Econômico Mundial em Davos, em 2025.
O Departamento de Defesa dos EUA já havia destacado a necessidade de melhorias em sua doutrina estratégica para o Ártico de 2024, enfatizando a modernização da consciência do domínio, vigilância, sensores, capacidades navais e tecnologias de alerta de mísseis. Sistemas existentes foram considerados insuficientes para as ameaças crescentes.
Investimentos Insuficientes e Capacidades Críticas
Os EUA e alguns aliados da OTAN subinvestiram em capacidades necessárias para detectar, rastrear e responder a atividades nas vastas distâncias do Ártico, conforme análise de Liselotte Odgaard, pesquisadora sênior do Hudson Institute. Em seu novo relatório, ela lista necessidades urgentes: vigilância aérea e submarina, fragatas de guerra antisubmarino, quebra-gelos pesados, navios de superfície multimissão para ambientes polares e capacidade de transporte marítimo de duplo uso.
A infraestrutura também é deficiente, incluindo redes de sensores submarinos, sistemas de comando e controle, portos, pistas de pouso e estradas. "Como resultado, os EUA e seus aliados têm opções insuficientes de monitoramento, resposta e sustentação", explicou Odgaard. "Essas deficiências permitem que adversários transitem por águas e territórios sem serem detectados".
Presença Limitada e Novos Esforços
A presença constante dos EUA na região, seja por meio de exercícios ou monitoramento, tem sido insuficiente. O ex-vice-comandante do Comando Norte dos EUA, general do Exército Thomas Carden, descreveu o Ártico em 2024 como o "setor de ameaça mais curto e menos defendido".
Novos esforços legislativos e orçamentários buscam reverter o quadro. A Lei "One Big Beautiful Bill" e o orçamento do ano fiscal de 2026 da Guarda Costeira destinam milhões para novos quebra-gelos, navios-patrulha e atualizações de infraestrutura ártica. A Guarda Costeira recebeu seu primeiro quebra-gelo polar em mais de 25 anos e renomeou seu distrito ártico para um papel de monitoramento mais proeminente.
Paralelamente, os EUA trabalham para implantar novos sistemas de defesa aérea e interceptores no Alasca. O orçamento de 2026 da Força Espacial inclui bilhões para o "Golden Dome", com foco em sensores e interceptores baseados no espaço, e para modernizar a Base Espacial de Pituffik, na Groenlândia.
Lacunas Persistentes e Desafios Tecnológicos
Apesar dos investimentos, áreas críticas permanecem subdesenvolvidas. Partes do espaço aéreo sobre o leste da Groenlândia e o Polo Norte não são monitoradas de forma consistente, e as capacidades de detecção e rastreamento de submarinos ao longo da costa leste da Groenlândia estão aquém do necessário, alerta o relatório do Hudson Institute.
Essas lacunas são preocupantes diante da expansão das operações de submarinos russos no Ártico. Sistemas não tripulados, como drones navais e aéreos, poderiam, em teoria, estender a cobertura de vigilância, mas o ambiente hostil do Ártico – com temperaturas abaixo de zero, baixa visibilidade e ventos fortes – pode degradar seu desempenho e desafiar suas baterias e alcance.
Contexto de Competição Global
Os investimentos renovados dos EUA ocorrem enquanto Rússia e China aprofundam a cooperação e perseguem ativamente interesses na região. A Rússia busca expandir as áreas de operação de seus submarinos, e a China se posiciona estrategicamente como uma nação "quase ártica", participando de patrulhas conjuntas com a Rússia, inclusive perto do Alasca. A China também investe em capacidades navais, navios e drones para a região, intensificando a competição estratégica no topo do mundo.