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Reservas florestais na Nigéria, como a Floresta de Sambisa, transformaram-se em bases estratégicas para grupos terroristas e criminosos. A vastidão, o isolamento e a falta de monitoramento governamental facilitam a movimentação e as operações ilegais desses grupos, que aterrorizam comunidades vizinhas e exploram recursos naturais.

Analistas apontam que a má gestão, a corrupção e o subfinanciamento crônico resultaram em florestas em grande parte não mapeadas e desprotegidas. Essa negligência burocrática, aliada à sobreposição de responsabilidades federais e estaduais, criou vastas áreas sem governança efetiva.

Da reserva natural à fortaleza terrorista

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A Floresta de Sambisa, no nordeste da Nigéria, é o caso mais emblemático. Com aproximadamente 60 mil quilômetros quadrados, ela se estende por estados como Borno, Yobe, Gombe e Bauchi e faz fronteira com Chade e Camarões. Outrora uma famosa reserva de vida selvagem, tornou-se o centro de operações do grupo terrorista Boko Haram após o Exército nigeriano expulsá-lo de áreas urbanas como Maiduguri.

“A polícia e os militares geralmente não patrulham as florestas, mas sim utilizam bloqueios de estradas fora dessas áreas protegidas”, explicou Ladd Serwat, analista da organização Armed Conflict Location and Event Data (Acled). Essa abordagem foi replicada em todo o país, com parques nacionais no noroeste e centro, como Kainji, Kwiambana, Kamuku e Alawa, também se tornando refúgios.

Financiamento ilegal e impacto nas comunidades

Os grupos armados exploram as florestas para atividades que financiam suas operações. No nordeste, o comércio ilegal de animais selvagens, como elefantes e javalis, e de ouro sustenta o Boko Haram. No noroeste, a mineração ilegal de ouro e o contrabando alimentam o terrorismo, com prejuízos anuais estimados em cerca de US$ 9 bilhões (R$ 47 bilhões) para a Nigéria, segundo a mídia local.

As consequências para as populações locais são devastadoras. Agricultores são deslocados, sofrem violência, extorsão, sequestros e são forçados a trabalhar para os grupos. “Essas áreas se tornaram zonas proibidas para os agricultores. Se elas não têm mais acesso às suas terras agrícolas devido à insegurança, a insegurança alimentar se instala”, afirmou Malik Samuel, pesquisador sênior do Good Governance Africa.

Desafios logísticos e esforços de contenção

O terreno acidentado, a densa vegetação e o acesso rodoviário limitado tornam as operações militares convencionais extremamente difíceis. “Há partes dessas florestas onde nem mesmo durante o dia se consegue enxergar direito. Às vezes, é preciso até usar uma lanterna”, relatou Samuel, que estudou grupos armados no norte da Nigéria. “Mesmo que as forças de segurança usem vigilância aérea, é difícil sobrevoar áreas densamente florestadas.”

Em resposta, o governo nigeriano treinou, até o final de dezembro de 2025, mais de 7 mil guardas florestais em um programa intensivo de três meses. O objetivo é manter terroristas e criminosos longe dessas áreas.

Especialistas defendem soluções além da força

Analistas alertam que uma abordagem puramente militar é insuficiente. “Uma abordagem militar mais dura é dispendiosa e muitas vezes contraproducente quando se trata de construir relações sólidas com a população local”, avaliou Ladd Serwat. Para ele e outros especialistas, soluções duradouras devem incluir o fortalecimento da gestão florestal, a melhoria da coleta de informações nas comunidades e a consideração dos meios de subsistência da população.

“Eles se apresentam como um governo alternativo porque sabem muito bem que o Estado não está presente nessas áreas”, concluiu Malik Samuel. O pesquisador destaca que os grupos armados exploram o vácuo de poder, às vezes se comprometendo falsamente com objetivos como fortalecimento econômico para conquistar apoio local.