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Mais de 2.000 embarcações pesqueiras chineses formaram formações coordenadas e incomuns no Mar da China Oriental em dezembro e janeiro, segundo dados de rastreamento marítimo. Especialistas em segurança regional afirmam que a escala e a precisão dos movimentos são "inéditas" e inconsistentes com práticas normais de pesca, indicando a possível atuação da Milícia Marítima da China, uma força paramilitar usada para afirmar controle em águas contestadas.

Os eventos ocorreram em 25 de dezembro e 11 de janeiro, nas proximidades da costa de Xangai. No primeiro caso, os navios se alinharam em dois formatos de "L invertido", com linhas superiores a 460 quilômetros de extensão. No segundo, quase 1.500 barcos formaram uma única linha reta de aproximadamente 480 km. Após se posicionarem, as embarcações permaneceram paradas por horas antes de se dispersarem.

Especialistas apontam para operação coordenada

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“Observando esse tipo de dados há anos, nunca vi nada parecido. A quantidade de navios envolvidos é maior do que qualquer coisa que já vi antes”, disse Harrison Prétat, diretor-adjunto da Iniciativa de Transparência Marítima da Ásia (AMTI), ao Business Insider. A análise de dados da Starboard Maritime Intelligence mostrou que os barcos, inicialmente dispersos, convergiram para áreas definidas ao longo de vários dias antes de assumirem os alinhamentos precisos.

Andrew S. Erickson, professor do U.S. Naval War College e especialista na Milícia Marítima chinesa, foi taxativo: “A escala, a geometria, a coordenação e a rápida montagem e dispersão dessas formações são simplesmente irreconciliáveis com o comportamento normal de pesca”. Em análise pessoal, ele descreveu o evento como um “enorme flash mob precisamente geocoordenado”.

A sombra da Milícia Marítima chinesa

Especialistas vinculam o padrão de comportamento ao modus operandi conhecido da Milícia Marítima da China. Conforme avaliação mais recente do Departamento de Defesa dos EUA (Pentágono), Pequim subsidia organizações comerciais locais para operar navios da milícia em missões oficiais esporádicas, além de suas atividades civis regulares. Os marinheiros, geralmente pescadores, são organizados e treinados pela Marinha e pela Guarda Costeira chinesas, podendo ser ativados sob demanda.

Essa força oferece à China uma opção para fazer valer reivindicações territoriais em águas disputadas, como as do Mar da China Meridional, com menos consequências políticas do que um envolvimento direto de sua marinha ou guarda costeira. A AMTI observou em fevereiro de 2025 que muitos navios passam a maior parte do tempo ancorados em postos militares chineses, e não em recifes não ocupados, sugerindo que as autoridades não estão mais pressionando os proprietários a manter a "fachada" da milícia como uma frota pesqueira legítima.

Objetivos e implicações regionais

O propósito dos movimentos em massa de dezembro e janeiro permanece incerto. Prétat sugere que pode ter sido um “teste inicial da capacidade de organizar navios pesqueiros geograficamente”. Já Erickson aponta que poderia ser um sinal, um treino para mobilização de forças ou um exercício.

“Isso ressalta a realidade de que esta terceira força marítima da RPC [República Popular da China] se envolve em ameaçadoras operações de zona cinzenta e atividades de preparação para a guerra não apenas no Mar da China Meridional, mas também no Mar da China Oriental, com implicações para Taiwan, Japão, segurança regional e os interesses vitais dos EUA”, afirmou Erickson.

O Pentágono avalia que, em um cenário de guerra, como uma invasão chinesa a Taiwan, a Milícia Marítima poderia apoiar operações de combate, criando obstáculos à intervenção militar estrangeira. Uma grande preocupação, segundo Prétat, seria um bloqueio realizado pela milícia para “dissuadir, redirecionar e, por fim, parar o tráfego comercial, cargas e remessas de combustível para Taiwan”.

A versão oficial chinesa

A embaixada chinesa nos EUA rejeitou as alegações. Em comunicado ao Business Insider, o porta-voz Liu Pengyu afirmou que o Mar da China Oriental é uma área importante para a pesca e que o período de novembro a fevereiro é o pico da pesca de inverno. “Portanto, é normal ver uma alta concentração de barcos pesqueiros operando no mar durante esse período”, disse. “Referir-se aos pescadores chineses como 'milícia marítima' mostra má intenção movida por motivos ocultos.”