O historiador e filósofo Yuval Noah Harari alertou que a inteligência artificial está prestes a criar duas crises fundamentais para todas as nações. A declaração foi feita durante uma palestra sobre IA e humanidade no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na terça-feira (21). Harari é autor do best-seller "Sapiens: Uma Breve História da Humanidade" e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Segundo o pensador, a primeira crise será uma crise de identidade para a humanidade. A sociedade moderna construiu seu valor com base na capacidade única de pensar, criar e compreender. No entanto, com a IA superando os humanos em diversas tarefas cognitivas, esse pilar central da autoestima e do propósito humano entrará em colapso.
Imigrantes digitais e seus impactos
A segunda crise prevista por Harari é uma crise migratória, mas de um tipo inédito. Ele compara os sistemas de IA a "imigrantes" que cruzam fronteiras digitais para entrar em um país. Esses "imigrantes de IA" trariam benefícios, como habilidades avançadas em medicina e educação, mas também causariam grandes disrupções sociais e econômicas.
"Aqueles que se preocupam com imigrantes humanos geralmente argumentam que eles podem tomar empregos, podem mudar a cultura local, podem ser politicamente desleais. Não tenho certeza se isso é verdade para todos os imigrantes humanos, mas definitivamente será verdade para os imigrantes de IA", afirmou Harari em sua palestra.
Direitos e personalidade jurídica para a IA
O historiador levantou uma questão crucial para legisladores e sociedade: devem as IAs ser reconhecidas como "pessoas jurídicas"? Conceder direitos legais a sistemas de inteligência artificial permitiria que eles abrissem empresas, fundassem e pregassem suas próprias religiões ou se conectassem com crianças nas redes sociais.
"Se você quer influenciar para onde a humanidade está indo, precisa tomar uma decisão agora", alertou Harari, enfatizando a urgência do debate. Ele é pesquisador sênior do Centro para o Estudo do Risco Existencial da Universidade de Cambridge.
Conceito ganha eco na indústria de tecnologia
A expressão "imigrantes de IA" não é uma criação isolada de Harari. No início deste mês, Jensen Huang, CEO da Nvidia, uma das maiores empresas do setor, usou o mesmo termo. Huang afirmou que esses "imigrantes" ajudariam os humanos em trabalhos que não desejamos mais fazer, como empregos na manufatura, segundo reportagem da agência France-Presse (AFP).
Harari já havia explorado as ameaças existenciais da IA em seu livro de 2015, "Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã". Seu alerta em Davos reforça a necessidade de um marco regulatório global antes que a tecnologia avance além do controle das instituições humanas.