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Jane Austen, uma das mais celebradas escritoras da literatura inglesa, completa 250 anos em 2025 com um legado que transcende suas obras originais. Seus romances, publicados no início do século 19, continuam a inspirar adaptações para cinema, séries de TV e conteúdo viral nas redes sociais, dialogando com questões contemporâneas de gênero, classe e relacionamentos.

Nascida em 1775 em Steventon, Hampshire, Austen foi a sétima de oito filhos e começou a escrever na adolescência. Ela publicou anonimamente quatro romances em vida: Razão e Sensibilidade (1811), Orgulho e Preconceito (1813), Mansfield Park (1814) e Emma (1815). Dois outros, A Abadia de Northanger e Persuasão, foram lançados postumamente em 1817, ano de sua morte aos 41 anos.

Universalidade Atemporal e Crítica Social

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Especialistas atribuem a permanência da obra de Austen à sua aguda compreensão da natureza humana e à criação de personagens com características reconhecíveis em diversos contextos culturais. "Seu humor ainda funciona, embora o mesmo não possa ser dito de seus contemporâneos", afirma Juliette Wells, professora de estudos literários no Goucher College (EUA) e autora de Everybody's Jane: Austen in the Popular Imagination.

Austen ambientou suas histórias na Inglaterra da Era da Regência (1811-1820), explorando uma sociedade classista e patriarcal. "As heroínas de Austen vivem em uma sociedade [...] com regras rígidas de conduta e uma significativa dupla moral de gênero. De certa forma, nosso mundo do século 21 não é tão diferente", analisa Wells.

Heroínas Eloquentes e Protagonistas Masculinos Icônicos

A autora concedeu às suas protagonistas femininas poder de decisão através de sagacidade e inteligência. Personagens como Elizabeth Bennet (Orgulho e Preconceito) e Anne Elliot (Persuasão) são citadas como exemplos de mulheres que valorizam a felicidade pessoal e desafiam o esnobismo familiar.

Ao mesmo tempo, Austen criou protagonistas masculinos que se tornaram arquétipos românticos, com Sr. Fitzwilliam Darcy à frente. "Os homens de Austen podem definitivamente ser lidos como uma fantasia feminina do que um homem heterossexual deveria ser", explica Shelley Galpin, professora do King's College de Londres. A transformação de Darcy de aristocrata distante a parceiro devotado solidificou seu status na cultura pop, reforçado pelas interpretações dos atores Colin Firth e Matthew Macfadyen.

Adaptações e Presença na Cultura Digital

As narrativas de Austen provaram ser um modelo fértil para adaptações. Hollywood produziu sucessos como As Patricinhas de Beverly Hills (1995), baseado em Emma, e a franquia O Diário de Bridget Jones, inspirada em Orgulho e Preconceito. A influência chegou a Bollywood com Noiva e Preconceito (2004) e à televisão com a série de sucesso da Netflix, Bridgerton, que homenageia o universo da Era da Regência.

Na era digital, trechos de suas adaptações cinematográficas e frases espirituosas dos livros são amplamente remixados em plataformas como TikTok, Instagram e Twitter. Seus enredos são legendados com ansiedades modernas sobre namoro e autoafirmação, encontrando ressonância especialmente com a Geração Z e no contexto pós-#MeToo.

Um Legado em Debate e Evolução

Embora às vezes descrita como uma precursora do feminismo, estudiosos observam nuances. Seus finais frequentemente se alinham com normas patriarcais da época, com as heroínas encontrando felicidade doméstica. No entanto, sua crítica à desigualdade de gênero é evidente. Galpin cita a fala de Anne Elliot em Persuasão"a caneta esteve nas mãos deles" – como um comentário incisivo sobre a dominação masculina. "Eu diria que certamente existem elementos feministas em sua escrita, mesmo que não seja estritamente correto chamá-la de feminista", conclui a professora.

O legado de Jane Austen, portanto, não se restringe à sua fama literária canônica. Ele se renova na capacidade de suas histórias, personagens e críticas sociais continuarem a dialogar, de forma relevante e adaptada, com o público do século 21.