Matrículas em ciência da computação caem pela 1ª vez desde 2001 nos EUA

Matrículas em ciência da computação caem pela 1ª vez desde 2001 nos EUA

Estudantes migram para cursos de inteligência artificial em meio a temores sobre automação e mercado de trabalho.

Redação
Redação

15 de fevereiro de 2026

Pela primeira vez desde o estouro da bolha das pontocom, o número de matrículas em cursos de ciência da computação caiu nos campi da Universidade da Califórnia neste outono. No sistema como um todo, a queda foi de 6% em 2025, após um declínio de 3% em 2024, de acordo com reportagem do *San Francisco Chronicle*. O movimento ocorre mesmo com o aumento de 2% nas matrículas universitárias em nível nacional, segundo dados de janeiro do National Student Clearinghouse Research Center.

A única exceção foi o campus da UC San Diego, que criou um curso específico em inteligência artificial neste semestre. A mudança reflete uma tendência mais ampla, onde estudantes estão optando por programas focados em IA em vez dos tradicionais diplomas de CS, em um cenário de incertezas sobre o mercado de trabalho para graduados e o impacto da automação.

China avança e EUA correm atrás

Enquanto universidades americanas começam a se adaptar, a China já trata o domínio da IA como infraestrutura essencial. Conforme reportado pelo *MIT Technology Review* em julho passado, quase 60% dos estudantes e professores chineses usam ferramentas de IA várias vezes ao dia. Instituições de elite, como a Universidade de Zhejiang, tornaram disciplinas de IA obrigatórias, e a Universidade Tsinghua criou novas faculdades interdisciplinares dedicadas ao tema.

Nos Estados Unidos, a corrida para lançar programas específicos acelerou nos últimos dois anos. O curso de "IA e tomada de decisão" do MIT é agora o segundo maior do campus. A Universidade do Sul da Flórida matriculou mais de 3.000 alunos em uma nova faculdade de IA e cibersegurança no outono, e a Universidade de Buffalo lançou um departamento de "IA e Sociedade" com sete novos cursos de graduação.

Resistência interna e pressão dos pais

A transição, no entanto, não tem sido tranquila em todas as instituições. Lee Roberts, reitor da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, descreveu em outubro um cenário de divisão entre professores: alguns "se inclinam para a frente" com a IA, enquanto outros têm "a cabeça na areia". Roberts, um ex-executivo financeiro que veio de fora da academia, nomeou um vice-reitor especificamente para IA e defendeu a fusão de duas escolas para criar uma entidade focada no tema, decisão que enfrentou resistência interna.

"Ninguém vai dizer aos alunos depois que se formarem: 'Faça o melhor trabalho que puder, mas se usar IA, você estará encrencado'", disse Roberts. "No entanto, temos membros do corpo docente efetivamente dizendo isso agora."

A pressão também vem dos pais. David Reynaldo, da consultoria de admissões College Zoom, afirmou ao *Chronicle* que pais que antes incentivavam os filhos a seguir CS agora os direcionam reflexivamente para outras áreas, como engenharia mecânica e elétrica, vistas como mais resistentes à automação pela IA.

Êxodo ou migração?

Os números de matrícula sugerem que os estudantes estão votando com os pés. Uma pesquisa de outubro da Computing Research Association mostrou que 62% dos departamentos de computação relataram quedas nas matrículas de graduação neste outono. Com os programas de IA crescendo rapidamente, o fenômeno se assemelha mais a uma migração do que a um êxodo da tecnologia.

Universidades como a do Sul da Califórnia, Columbia, Pace e a Universidade Estadual do Novo México estão entre as que lançarão novos diplomas em IA no próximo outono. A mudança é um alerta para administradores que ainda debatem como lidar com a IA em sala de aula. A questão agora não é mais se ferramentas como o ChatGPT devem ser banidas, mas se as universidades americanas conseguirão se mover rápido o suficiente para atender à demanda dos alunos.

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