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A Meta, conglomerado tecnológico de Mark Zuckerberg, anunciou o fim do desenvolvimento do Supernatural, seu aplicativo de exercícios em realidade virtual (VR), resultando na demissão de toda a equipe do app. A decisão, parte de um corte de 1.500 funcionários na divisão Reality Labs, congelará o serviço, que não receberá mais atualizações nem novos treinos, deixando uma base de usuários pagantes e apaixonados em estado de choque e revolta.

Lançado pela startup Within Unlimited e adquirido pela Meta por mais de US$ 400 milhões em 2022, o Supernatural oferecia sessões de cardio imersivas com música licenciada e treinadores virtuais. Para acessá-lo, era necessário um headset Quest (cerca de US$ 300) e uma assinatura mensal de US$ 10. Apesar do nicho, o app cultivou uma comunidade engajada de mais de 113 mil membros no Facebook, muitos dos quais relatavam transformações significativas em sua saúde física e mental.

Reação da comunidade e críticas à Meta

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No grupo oficial do app, a notícia foi recebida com uma enxurrada de descontentamento. "Sinto como se tivesse levado um chute no estômago", escreveu um usuário. "Quatro anos de Supernatural, quase todos os dias. Me sinto TRAÍDO", desabafou outro. Relatos de perda de peso, reversão de diabetes e superação de crises pessoais eram comuns entre os fãs, que viam o app não apenas como uma ferramenta de fitness, mas como uma comunidade e um escape.

A decisão reacendeu críticas sobre as práticas de aquisição e abandono de produtos por grandes empresas de tecnologia. Lina Khan, ex-presidente da Comissão Federal de Comércio (FTC) dos EUA, que tentou barrar a compra do Supernatural pela Meta em 2022, afirmou que a situação é "exatamente o que as leis antitruste são projetadas para prevenir". Em comunicado, ela disse que a Meta eliminou a concorrência ao comprar um líder de mercado para depois abandoná-lo quando suas prioridades corporativas mudaram.

Mudança de foco para a Inteligência Artificial

O encerramento do Supernatural ocorre no contexto de uma mudança estratégica massiva da Meta. Após investir mais de US$ 70 bilhões na visão do "metaverso" com resultados limitados – incluindo um prejuízo de quase US$ 20 bilhões apenas em 2025 –, a empresa agora canaliza seus recursos para o desenvolvimento de inteligência artificial (IA) generalizada e óculos inteligentes com câmeras e microfones integrados.

Andrew Bosworth, diretor de tecnologia (CTO) da Meta, justificou os cortes afirmando que a realidade virtual "está crescendo menos rapidamente do que esperávamos" e que os investimentos precisam ser "redimensionados". Internamente, a decisão também gerou desconforto. Um funcionário da Reality Labs, que pediu anonimato, criticou a lógica de "dizimar estúdios que você adquiriu", argumentando que isso prejudica a credibilidade da empresa em futuras aquisições.

Petições e a busca por alternativas

Em resposta, os fãs do Supernatural começaram a se mobilizar. John Hansknecht, 62, um engenheiro da Carolina do Sul, criou uma petição no Change.org para "Salvar o Supernatural", pedindo que a Meta reviva o app ou o torne independente para ser mantido por financiamento comunitário. A petição já conta com mais de 7 mil assinaturas. Outros usuários chegaram a apelar publicamente a figuras como Elon Musk e Taylor Swift para que comprem ou assumam o aplicativo.

Para especialistas, o caso exemplifica um ciclo comum no Vale do Silício. Lisa Messeri, antropóloga de Yale e autora de um livro sobre VR, questiona a ética de corporações que coletam anos de dados físicos e emocionais de usuários para depois descontinuar um serviço que funcionava como autocuidado. "Parte da raiva que você está vendo vem desse sentimento de traição", afirma Messeri, relacionando-o ao mito de que a tecnologia sempre equivale a progresso social.

Enquanto a Meta avança em sua aposta bilionária em IA, milhares de usuários do Supernatural enfrentam a perda de uma rotina valiosa. A empresa não se pronunciou sobre possíveis reembolsos ou um plano de transição para os assinantes. O aplicativo permanece ativo, porém estático, com a incerteza sobre por quanto tempo as licenças de música e os servidores serão mantidos, simbolizando o fim de um dos produtos mais imersivos já criados para o ecossistema de realidade virtual da Meta.