Grandes erupções solares podem ter origem em perturbações aparentemente fracas que desencadeiam uma reação em cadeia, semelhante a uma avalanche. A conclusão é de um novo estudo baseado em observações inéditas da missão Solar Orbiter, da Agência Espacial Europeia (ESA), que analisou um flare solar ocorrido em setembro de 2024. A pesquisa foi publicada nesta terça-feira (21) na revista científica Astronomy & Astrophysics.
Os dados de altíssima resolução permitiram aos cientistas observar, pela primeira vez com tanto detalhe, os cerca de 40 minutos de eventos que precederam uma grande explosão. As imagens revelaram uma sequência rápida de reconexões magnéticas em cadeia, processo que os pesquisadores descrevem como uma "avalanche magnética".
Segundo Pradeep Chitta, autor principal do estudo do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar, na Alemanha, a equipe teve uma oportunidade rara. “Fomos realmente muito sortudos por conseguir observar os eventos que antecederam esse grande flare com um nível de detalhe tão alto”, afirmou em comunicado.
Observações inéditas de uma região ativa
O estudo analisou um flare observado em 30 de setembro de 2024, durante uma das passagens mais próximas da sonda Solar Orbiter pelo Sol. O instrumento EUI (Extreme Ultraviolet Imager) capturou imagens da coroa solar, a camada mais externa e quente da atmosfera solar, registrando mudanças a cada dois segundos e revelando estruturas de apenas algumas centenas de quilômetros.
No início, os cientistas identificaram um arco escuro formado por plasma e campos magnéticos retorcidos, conectado a uma estrutura em formato de cruz que ficava progressivamente mais brilhante. Em cada novo quadro, surgiam novos filamentos magnéticos, semelhantes a cordas que se torciam e acumulavam energia.
A reação em cadeia que leva à explosão
Com o tempo, a região tornou-se instável. Os filamentos começaram a se romper e se reconectar, provocando uma reação em cadeia onde cada reconexão tornava o processo mais intenso, até desencadear a grande erupção. Pouco antes do pico, parte da estrutura se desprendeu e foi lançada ao espaço, enquanto faíscas brilhantes marcavam pontos de reconexão.
Durante o evento, os instrumentos SPICE e STIX registraram a emissão intensa de raios X, indicando que partículas haviam sido aceleradas a velocidades entre 40% e 50% da velocidade da luz, um sinal claro de como a energia foi depositada na atmosfera solar.
Implicações para a previsão de tempestades solares
A descoberta tem implicações importantes para a compreensão e possível previsão de tempestades geomagnéticas. Erupções solares muito energéticas, como a observada, podem dar origem a essas tempestades, que são capazes de afetar comunicações, sistemas de navegação, satélites e missões tripuladas no espaço.
Os pesquisadores concluem que uma grande erupção solar não precisa ser um evento único e isolado, mas pode resultar da soma de múltiplas reconexões magnéticas menores que se espalham rapidamente. Após o flare, os instrumentos do Solar Orbiter observaram o relaxamento das estruturas magnéticas e o resfriamento gradual do plasma, encerrando o ciclo do evento.