Publicidade

Três moradores da Groenlândia reagiram às declarações do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que se referiu ao território como um "pedaço de gelo" e o chamou de "Islândia" em discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na quarta-feira (22). Os residentes, entrevistados pela Business Insider, enfatizaram que a ilha, lar de mais de 56 mil pessoas, é muito mais do que uma massa de gelo.

Em seu pronunciamento, Trump defendeu "negociações imediatas" para que os EUA assumissem o controle da Groenlândia, citando interesses de segurança nacional e estratégicos. Ele também descreveu o território autônomo da Dinamarca como um "grande e belo pedaço de gelo", afirmando que os EUA "sozinhos podem defender este pedaço de gelo gigante". A Casa Branca não respondeu ao pedido de comentário da reportagem.

Retórica "desrespeitosa" e "commoditizante"

Publicidade

Ole Olsvig, 32 anos, empreendedor e guia turístico em Qaarsut, no norte da Groenlândia, classificou os comentários como "ultrajantes", "desrespeitosos" e "commoditizantes". "Chamar a Groenlândia apenas de 'pedaço de gelo' é tão impreciso", disse ele. Tecnicamente, cerca de 80% da ilha é coberta por uma imensa camada de gelo, mas Olsvig destacou que o problema está no que as palavras implicam: apagam as pessoas e sugerem descartabilidade.

"A Groenlândia está sendo tratada como um ativo, não como uma sociedade de pessoas", afirmou Olsvig. Ele ressaltou que o território possui língua oficial própria, autogoverno e práticas culturais distintas, incluindo caça, pesca e criação de cães de trenó. "A Groenlândia não é apenas um mapa em branco", completou.

"Não estamos à venda", dizem residentes

Tupaarnaq Kreutzmann Kleist, uma criadora de ovelhas que vive em Qassiarsuk, no sul da Groenlândia, foi direta: "Não estamos à venda". Ela acredita que o interesse de Trump vai além da segurança nacional e inclui o acesso aos recursos naturais abundantes do território. No entanto, Kleist lembrou que a indústria de mineração na Groenlândia opera sob regras muito rígidas.

"Mesmo que ele realmente queira comprar a Groenlândia, não é um lugar que ele pode simplesmente comprar e depois fazer uma mina", explicou. Ela também rejeitou a ideia de se tornar parte dos Estados Unidos: "Não estamos nos tornando parte da América", afirmou, apesar dos desejos de Trump.

Impactos práticos e unidade nacional

Casper Frank Møller, 28 anos, CEO e cofundador da empresa de turismo Raw Arctic, sediada em Nuuk, capital da Groenlândia, disse que a atenção internacional gerada por Trump teve alguns efeitos positivos. No início de 2025, quando o ex-presidente retomou o tema da aquisição, sua empresa registrou um aumento no interesse de turistas.

Contudo, Møller afirmou que a invasão dos EUA à Venezuela causou preocupações adicionais, porque "havia muito mais poder por trás das palavras". Ele estima que entre 20 e 30 clientes adiaram planos de viagem para a Groenlândia enquanto aguardam o desenrolar da situação.

Paradoxalmente, a abordagem agressiva de Trump pode ter tornado o país menos polarizado e mais unido em torno de uma possível independência futura. "Não queremos ser americanos. Não queremos ser dinamarqueses. Queremos ser groenlandeses. A questão é apenas: quando devemos cortar os laços?", questionou Møller.

Diplomacia versus descrição factual

Møller destacou o caráter pacífico e diplomático do povo groenlandês: "Nós, como povo groenlandês, somos democráticos, buscamos a diplomacia e não queremos que nenhuma guerra aconteça aqui na Groenlândia. Estamos procurando soluções diplomáticas".

Ele reconheceu que, em parte, a descrição de Trump contém um fato: "A Groenlândia com certeza tem um pedaço de gelo imenso, anormalmente grande na camada de gelo. É verdade". No entanto, ele finalizou com uma correção afetiva: "Temos alguns dos lugares mais bonitos da Terra. Algumas das áreas mais remotas e intocadas que você pode imaginar. E eu diria que, para aquele grande pedaço de gelo, é isso que chamamos de lar".

Contexto histórico: O interesse dos Estados Unidos pela Groenlândia não é novo. Discussões sobre a aquisição do território remontam ao século XIX. Trump manifestou desejo de adquiri-la desde seu primeiro mandato presidencial.