O chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, criticou publicamente a decisão do Parlamento Europeu de submeter o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia à análise do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE). A medida, aprovada por pequena margem na quarta-feira (21), pode atrasar em até 26 meses a ratificação do tratado, que já consumiu 26 anos de negociações.
Em discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, nesta quinta-feira (22), Merz classificou a ação como "mais um obstáculo" no caminho do acordo. O premiê alemão defendeu a legalidade e o equilíbrio do pacto, considerado vital para o crescimento econômico europeu.
Repercussão imediata e defesa do acordo
"Lamento profundamente que o Parlamento Europeu tenha colocado mais um obstáculo em nosso caminho", afirmou Merz a líderes políticos e empresariais. "Mas tenham certeza de que não seremos impedidos. O acordo com o Mercosul é justo e equilibrado. Não há alternativa se quisermos ter um maior crescimento na Europa", completou.
A crítica foi reiterada nas redes sociais do chanceler. Em publicação na plataforma X, Merz argumentou que a decisão "ignora a situação geopolítica" e defendeu a aplicação provisória imediata do acordo, antes da conclusão do processo judicial.
Impacto econômico e dimensões do tratado
A Alemanha é o maior exportador europeu para o Mercosul, com vendas no valor de 17 bilhões de dólares (cerca de R$ 90 bilhões) em 2023. Os principais produtos foram carros, peças automotivas, medicamentos, vacinas, baterias elétricas e petróleo refinado.
O acordo prevê a eliminação gradual de tarifas de importação para uma vasta gama de produtos, incluindo veículos, máquinas e medicamentos. Uma vez ratificado, criará uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, abrangendo um mercado de aproximadamente 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) combinado superior a 22,4 trilhões de dólares (cerca de R$ 118 trilhões).
Contexto e próximos passos
O tratado visa facilitar o comércio de bens e serviços entre os 27 países da União Europeia e os quatro membros plenos do Mercosul: Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Apesar da judicialização, a Comissão Europeia tem a prerrogativa de decidir pela aplicação provisória do acordo, um caminho defendido por Merz.
Em seu discurso em Davos, o líder alemão também alertou sobre a necessidade de os europeus se adaptarem à rápida transformação da ordem mundial, que estaria "se desfazendo num ritmo impressionante". O impasse no acordo Mercosul-UE é visto como um teste para a capacidade de ação geopolítica do bloco europeu em um contexto global em mudança.