O regime iraniano é acusado de ter causado a morte de cerca de 2.000 pessoas desde o início dos protestos no país, segundo análise do consultor eleitoral Wilson Pedroso. A resposta do governo de Teerã incluiu o desligamento da internet e o endurecimento da repressão nas ruas, em uma tentativa de isolar a violência da comunidade internacional.
A reação global aos eventos, no entanto, tem sido considerada branda e seletiva quando comparada à resposta unificada e contundente do Ocidente à invasão russa da Ucrânia em 2022, que gerou sanções pesadas e ampla cobertura midiática.
Interesses estratégicos sobrepõem princípios
Para Pedroso, a diferença de tratamento não se deve ao número de vítimas ou à gravidade das violações, mas a um cálculo geopolítico puro. O Irã controla reservas de petróleo cruciais para a economia global e ocupa uma posição central no delicado equilíbrio nuclear do Oriente Médio.
"Pressionar Teerã significa mexer em preços de energia, riscos regionais e cadeias de abastecimento. E poucos governos estão dispostos a pagar esse preço agora", analisa o colunista do Portal IG.
Contradição na prática diplomática
A seletividade aparece na prática diplomática. Enquanto a Europa emite notas condenando a repressão, continua negociando a retomada do acordo nuclear com o Irã. Os Estados Unidos, por sua vez, equilibram discursos sobre direitos humanos com cálculos para evitar que o país se aproxime ainda mais da China e da Rússia.
Esse padrão, segundo a análise, não é exclusivo. A Arábia Saudita e a China também teriam cometido violações graves sem sofrer um isolamento internacional real, devido à sua importância econômica e estratégica.
Lógica previsível e o caso brasileiro
Pedroso aponta que a intensidade da reação internacional segue uma lógica baseada em três fatores: a importância econômica do país, seu alinhamento geopolítico e a existência de alternativas a ele. "Quando as respostas favorecem o país, a repressão é tolerada. Quando não favorecem, vira escândalo global", escreve.
O Brasil do governo Lula é citado como exemplo dessa dinâmica. Enquanto o país adotou posturas críticas em relação à Ucrânia e a Israel, mantém um "silêncio absoluto" sobre o Irã. A diferença, na visão do analista, é simples: "o Irã é parceiro nos BRICS".
Para o consultor, essa postura é estratégica. Criticar o Irã colocaria em risco a arquitetura dos BRICS e a ambição brasileira de liderar um bloco alternativo ao Ocidente, transformando os direitos humanos em "moeda de troca".
Mensagem cruel e um sistema que funciona
O regime iraniano, compreendendo essa dinâmica, calibraria sua repressão com precisão para não ultrapassar o limite que provocaria uma reação internacional concreta. A mensagem para os manifestantes, na análise final, é que "a cavalaria não existe quando você protesta no país errado".
O problema, conclui Pedroso, é estrutural. "Direitos humanos deixaram de ser princípios inegociáveis e passaram a ser fichas em negociações maiores. O caso do Irã não é uma exceção ao sistema internacional. É o sistema funcionando exatamente como foi desenhado."