Publicidade

A Ryanair, maior companhia aérea da Europa em número de passageiros, transformou uma troca de farpas públicas com o bilionário Elon Musk em uma campanha de marketing de alto impacto. A empresa lançou a "Big 'Idiot' Sale" com passagens a US$ 23 (cerca de R$ 115) após o CEO Michael O'Leary e Musk se chamarem mutuamente de "idiotas" em uma discussão pública sobre a eficácia do serviço de internet Starlink em voos.

Especialistas em aviação e comunicação avaliam que a estratégia é intencional e faz parte do DNA da empresa irlandesa de baixo custo. Birgir Jónsson, ex-CEO da companhia islandesa Play, afirmou à Business Insider que O'Leary "nunca perde uma oportunidade de se manter fiel à marca" e que Musk "nunca soube o que o atingiu e agora está inadvertidamente ajudando a Ryanair a promover sua venda de janeiro".

Estratégia de décadas para economizar milhões

Publicidade

Marc Cornelius, fundador e CEO da 8020 Communications, agência de RP especializada em aviação, destacou que o comportamento provocativo de O'Leary economiza "milhões em relações públicas e publicidade" ao criar "histórias que a mídia é obrigada a cobrir". O executivo de 64 anos está no comando da Ryanair há mais de 30 anos e possui 4% das ações da empresa, uma participação avaliada em mais de US$ 1 bilhão.

Rob Britton, ex-executivo da American Airlines e professor da Universidade de Georgetown, lembrou que O'Leary é um "dublê há décadas". Ele citou como exemplo a polêmica de 2009, quando o CEO sugeriu instalar fechaduras com moedeiro nos banheiros dos aviões, cobrando £1 (US$ 1,34 na época) por uso, um tema que gerou discussão por semanas.

Personalidade calculada e equipe engajada

Hans Jørgen Elnæs, analista de aviação que trabalhou na Ryanair entre 2015 e 2016, explicou que o estilo confrontador é a "personalidade dele quando está no modo negócios". No entanto, longe dos holofotes, Elnæs descreve O'Leary como "um sujeito muito bom". O próprio CEO minimizou a rixa com Musk, afirmando em coletiva de imprensa na quarta-feira que, desde que aumente as reservas, "é tudo diversão e entretenimento".

A estratégia não se limita ao CEO. A equipe de mídias sociais da Ryanair no X (antigo Twitter) tem papel ativo, frequentemente zombando de passageiros que reclamam de espaço para as pernas ou de outros aspectos do serviço básico. "Ao zombar abertamente de seus clientes, eles reforçam a mesma mensagem de custo-benefício de uma forma que corta o ruído e permanece inconfundivelmente fiel à marca", analisou Birgir Jónsson.

Contexto regulatório e futuro da liderança

A principal provocação de Musk foi um poll (enquete) no X perguntando se deveria comprar a Ryanair e instalar um CEO chamado "Ryan". No entanto, regulações da União Europeia exigem que as companhias aéreas do bloco sejam majoritariamente controladas por cidadãos europeus, tornando a hipótese inviável.

O'Leary já sinalizou que seu tempo no comando pode estar chegando ao fim. Em entrevista ao Financial Times no ano passado, ele afirmou que planeja se aposentar nos próximos 5 a 10 anos, declarando: "Não quero ficar por aqui até os 96 anos como [Warren] Buffett". Especialistas ponderam que o estilo único da empresa pode precisar de ajustes após sua saída. "Eles precisarão de uma abordagem diferente quando Michael eventualmente deixar o cargo", avaliou Marc Cornelius.