Políticos de diferentes espectros nos Estados Unidos estão se unindo para regulamentar e, em alguns casos, barrar a construção de novos centros de dados de inteligência artificial. A oposição cresce à medida que eleitores associam os complexos tecnológicos ao aumento das contas de luz e a preocupações ambientais, transformando o tema em uma questão eleitoral local e nacional.
Estados como Nova York, Geórgia, Maryland e Oklahoma têm propostas legislativas para pausar novas construções. A pressão ocorre em um momento de expansão acelerada do setor: no final de 2025, o país tinha mais de 4.000 centros de dados em operação e quase 3.000 em planejamento ou construção, segundo um relatório da American Edge Project.
Da atração à rejeição: a virada na política estadual
Por anos, estados americanos competiram para atrair centros de dados com incentivos fiscais, visando criação de empregos e receita. Agora, a proximidade desses empreendimentos com comunidades residenciais os tornou um problema do tipo "NIMBY" (Not In My Backyard). "Centros de dados massivos estão mirando Nova York, e no momento estamos completamente despreparados", afirmou a senadora estadual Liz Krueger ao anunciar um projeto de moratória de três anos.
Entre março e junho do ano passado, ativistas e residentes atrasaram ou bloquearam projetos de centros de dados no valor de US$ 98 bilhões, de acordo com o Data Center Watch, um projeto da empresa de segurança de IA 10a Labs.
Custo energético vira ponto central do debate
O principal motor da insatisfação popular é o impacto nas tarifas de energia. Uma análise da Bloomberg mostrou que contas de luz aumentaram até 267% em áreas próximas a "atividade significativa de centros de dados" nos últimos cinco anos. "As pessoas estão chateadas com os custos", diz Eli Yokley, analista político da Morning Consult.
Politicamente, tanto a esquerda quanto a direita abordam o tema. O senador Bernie Sanders defende uma moratória nacional, enquanto o ex-presidente Donald Trump, embora apoie a expansão da infraestrutura de IA, cobra que as grandes empresas de tecnologia "paguem sua própria conta" pelos custos energéticos adicionais.
Ansiedade com o AI e emprego alimentam críticas
Além dos custos, políticos capitalizam sobre a ansiedade generalizada em relação à IA. Trabalhadores temem perder empregos para a automação, e a criação de vagas temporárias durante a construção não se sustenta a longo prazo. Um auditoria legislativa na Virgínia indicou que um centro pode empregar 1.500 pessoas durante a obra, mas requer apenas 50 para a manutenção posterior.
O governador da Flórida, Ron DeSantis, criticou a narrativa utópica em torno da tecnologia em dezembro: "Não vamos tentar fingir que alguns vídeos ou músicas falsas vão nos levar a algum tipo de utopia". Ele propôs transferir custos das empresas de tecnologia para os consumidores e dar poder a municípios para bloquear novos centros.
Um tema em ascensão para as eleições
A rejeição popular está crescendo. Uma pesquisa da Morning Consult de novembro mostrou que 41% dos eleitores apoiam a proibição de centros de dados de IA perto de suas casas, um aumento em relação a 37% em outubro. Uma sondagem da Politico e Public First em janeiro revelou que 17% dos americanos esperam que a regulamentação desses centros seja um fator de voto nas eleições de meio de mandato.
Em Virginia, estado com a maior concentração mundial de centros de dados, a rejeição já alterou o cenário político. Em 2023, um desafiante pouco conhecido derrotou o presidente do conselho de supervisores de um condado, capitalizando a frustração com o desenvolvimento acelerado do setor.
Próximos passos e divisão partidária
A resistência local cria raras alianças entre liberais e conservadores preocupados com a qualidade de vida e custos. No Congresso, os senadores Josh Hawley (Republicano) e Richard Blumenthal (Democrata) apresentaram a primeira legislação bipartidária para conter aumentos nas contas de luz.
Analistas acreditam que o tema será crucial para candidatos desafiantes nas próximas eleições. "Centros de dados vão ser uma questão muito doce para os desafiantes e bastante difícil para os titulares", prevê Miquel Vila, analista-chefe do Data Center Watch. A batalha entre o avanço tecnológico e seus custos sociais promete se intensificar nos tribunais e nas urnas.