Empresa de desbloqueio de celulares Cellebrite corta Sérvia após abusos, mas ignora denúncias em outros países
Após suspender clientes sérvios por uso indevido, empresa israelense nega investigar casos similares no Quênia e Jordânia.
A fabricante israelense de ferramentas de desbloqueio de celulares Cellebrite suspendeu a polícia da Sérvia como cliente no ano passado, após pesquisadores de direitos humanos alegarem que a polícia e agências de inteligência locais usaram suas ferramentas para invadir os telefones de um jornalista e um ativista e instalar spyware. A decisão, rara e pública, foi baseada em um relatório técnico da Anistia Internacional.
No entanto, diante de acusações recentes e similares de abuso no Quênia e na Jordânia, a empresa respondeu descartando as alegações e se recusando a se comprometer com investigações. A mudança de postura levanta questões sobre os critérios da Cellebrite para agir contra clientes que violam direitos humanos.
Novas denúncias no Quênia e Jordânia
Nesta terça-feira, pesquisadores do Citizen Lab da Universidade de Toronto publicaram um relatório alegando que o governo queniano usou ferramentas da Cellebrite para desbloquear o telefone de Boniface Mwangi, ativista e político local, enquanto ele estava sob custódia policial. Em janeiro, outro relatório do mesmo grupo acusou o governo jordaniano de invadir os telefones de vários ativistas e manifestantes locais usando as ferramentas da empresa israelense.
Em ambas as investigações, o Citizen Lab baseou suas conclusões na descoberta de vestígios de um aplicativo específico vinculado à Cellebrite nos telefones das vítimas. Os pesquisadores afirmam que esses vestígios são um sinal de "alta confiança" de que as ferramentas de desbloqueio da empresa foram usadas, pois o mesmo aplicativo foi encontrado anteriormente no repositório de malware VirusTotal, assinado com certificados digitais de propriedade da Cellebrite.
Resposta da Cellebrite é de descrédito
Questionado sobre os casos, Victor Cooper, porta-voz da Cellebrite, disse ao TechCrunch por e-mail que a empresa "não responde a especulações" e incentivou qualquer organização com preocupações baseadas em evidências a compartilhá-las diretamente. Sobre a diferença de tratamento em relação ao caso da Sérvia, Cooper afirmou que "as duas situações são incomparáveis" e que "alta confiança não é evidência direta".
O porta-voz não respondeu a múltiplos e-mails de acompanhamento perguntando se a Cellebrite investigaria o último relatório do Citizen Lab e quais seriam as diferenças com o caso sérvio. Para o relatório da Jordânia, a empresa disse que "qualquer uso comprovado de nossas ferramentas em violação dos direitos humanos ou da lei local resultará em desativação imediata", mas não se comprometeu a investigar.
Para o caso do Quênia, a Cellebrite apenas reconheceu o recebimento da consulta do Citizen Lab, mas não comentou, segundo John Scott-Railton, um dos pesquisadores envolvidos. "Instamos a Cellebrite a divulgar os critérios específicos usados para aprovar vendas às autoridades quenianas e a divulgar quantas licenças foram revogadas no passado", disse Scott-Railton.
Histórico de cortes e mercado global
Após relatórios anteriores de abuso, a Cellebrite, que afirma ter mais de 7.000 clientes de aplicação da lei em todo o mundo, cortou relações com Bangladesh, Mianmar, Rússia e Belarus durante 2021. A empresa também disse anteriormente que parou de vender para Hong Kong e China após regulamentações do governo dos EUA que restringem a exportação de tecnologias sensíveis. Ativistas locais em Hong Kong haviam acusado as autoridades de usar a Cellebrite para desbloquear telefones de manifestantes.
A postura atual da empresa, no entanto, sugere uma aplicação seletiva de seus próprios padrões de conduta. A falta de transparência sobre seus processos de due diligence e a relutância em investigar novas denúncias credíveis colocam em dúvida a eficácia de seus mecanismos de controle para prevenir abusos.
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