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As principais montadoras do mundo estão optando por desenvolver internamente seus sistemas de direção autônoma, rejeitando a licença do software Full Self-Driving (FSD) da Tesla. A decisão estratégica ocorre mesmo após o CEO da fabricante de elétricos, Elon Musk, ter classificado a relutância como "loucura" em publicação na rede social X, em novembro.

Especialistas do setor automotivo apontam que as empresas veem a tecnologia do veículo como um componente definidor de marca, o que torna uma licença da Tesla uma proposta difícil de vender. A movimentação ganhou força nas últimas semanas, com anúncios de roadmaps tecnológicos que priorizam o desenvolvimento interno em vez do outsourcing.

Controle e custo motivam decisão estratégica

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A Ford anunciou, durante a Consumer Electronics Show (CES) em Las Vegas, planos para criar seu próprio software de direção "mãos livres" para vias públicas até 2028. Paul Costa, chefe de engenharia elétrica da Ford, afirmou que a internalização reduz custos em 30% e oferece maior controle sobre a integração e implantação do sistema. "Para integrar, não posso fazer isso com todos esses fornecedores. Precisamos trazer isso para dentro de casa", disse Costa à Business Insider.

Enquanto montadoras tradicionais não seguem o caminho ambicioso de projetar chips personalizados, como a Rivian, elas buscam soluções internas. A Rivian, por exemplo, está aprofundando sua integração vertical ao projetar um chip proprietário para o cérebro de seu computador de direção autônoma. O CEO RJ Scaringe chegou a abordar a ideia de um negócio de robotáxi durante o evento Autonomy & AI Day da empresa, no início de dezembro.

Integração é desafio chave com múltiplos fornecedores

Steve Man, analista sênior de automóveis da Bloomberg Intelligence, explicou que a pilha de tecnologia dos veículos autônomos pode ser pensada em três partes interconectadas: o software, os sensores e os atuadores – componentes que controlam o movimento físico do carro. "É realmente mais barato internalizar tudo para integrar esses três conjuntos de coisas", afirmou Man, destacando o desafio e o custo de fazer diferentes partes "conversarem" quando se depende de vários fornecedores.

Chris Ahn, principal da Deloitte que consulta grandes montadoras, reforçou que a decisão é competitiva e relacionada à identidade da marca. "Pessoas que possuem Fords as possuem por razões provavelmente diferentes das razões pelas quais pessoas que possuem Mercedes as possuem. Cada uma dessas montadoras terá que definir o que o ADAS significa para sua base de usuários", disse Ahn.

Ferramentas acessíveis reduzem atratividade da licença Tesla

À medida que as montadoras buscam mais controle, as ferramentas para construir autonomia se tornam mais acessíveis, reduzindo a atratividade comercial de uma licença do FSD da Tesla. Na CES, a Nvidia apresentou o Alpamayo, um pacote de modelos de raciocínio de IA, ferramentas de simulação e conjuntos de dados que as montadoras podem usar para desenvolver tecnologia de autocondução.

A Mercedes-Benz foi revelada como a primeira grande cliente da Nvidia, com planos de lançar um sistema ADAS de nível equivalente ao FSD da Tesla, construído sobre o Alpamayo, até o final deste ano. Um porta-voz da Nvidia esclareceu que o Alpamayo não é um software autônomo completo, mas um conjunto de ferramentas para fortalecer os programas próprios das montadoras.

Hugh Nguyen, sócio da KPMG especializado em sistemas de direção autônoma, afirmou que o Alpamayo "democratiza" o desenvolvimento de VAs ao reduzir custo e tempo para treinar os sistemas. Em sessão de perguntas e respostas na CES, o CEO da Nvidia, Jensen Huang, elogiou o FSD da Tesla como "completamente de classe mundial", mas destacou que a Nvidia não é uma empresa de carros autônomos. "Só queremos permitir que a indústria autônoma mundial. Tudo que se move deve ser autônomo", declarou Huang.

As negociações diretas entre Tesla e outras montadoras parecem improváveis no curto prazo. Musk afirmou em sua publicação no X que, quando a "indústria automotiva tradicional ocasionalmente entra em contato", as discussões são "tímidas" e propõem implementar o FSD para "um pequeno programa daqui a 5 anos com requisitos inviáveis para a Tesla". A Tesla não respondeu a um pedido de comentário da Business Insider sobre os requisitos mencionados por Musk.