O humorista, ator e apresentador José de Abreu anunciou sua candidatura a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT). A notícia, divulgada originalmente em coluna do portal iG, gera debate sobre a crescente entrada de figuras públicas com trajetória baseada em performance e confronto na política institucional.
José de Abreu, 45 anos, é um dos pioneiros do stand-up comedy no Brasil e ficou nacionalmente conhecido por sua participação no programa "CQC", da TV Bandeirantes. Com uma carreira que inclui apresentação, atuação, escrita e até uma linha de vinhos chamada "Putos", ele foi indicado ao Emmy Internacional em 2024.
Trajetória pública marcada por confronto
Analistas apontam que a candidatura chama atenção não pela ideologia, mas pelo perfil do candidato. A trajetória pública de José de Abreu foi construída, em parte, a partir da exposição e do confronto, uma lógica distinta da mediação exigida na política.
Um episódio frequentemente lembrado ocorreu em 2019, quando o artista foi filmado cuspiu em uma mulher dentro de um restaurante. O caso, amplamente noticiado, é citado por críticos como um símbolo da "ausência de freio" e da dificuldade de autocontenção diante do conflito.
Política como palco versus função de mediação
Especialistas argumentam que a essência da política é a mediação e a busca por acordos entre partes com interesses divergentes, exigindo diálogo e flexibilidade. Candidaturas baseadas em personagens, segundo essa visão, podem sintomatizar uma transformação do espaço político em extensão da personalidade e da guerra simbólica.
Do outro lado do espectro político, citam-se exemplos como o do deputado federal Nikolas Ferreira, que em 2023 subiu à tribuna da Câmara usando uma peruca loira – um gesto interpretado por analistas como uma performance para a própria base, e não uma tentativa de diálogo amplo.
Teste será o exercício do cargo
A experiência internacional oferece casos contrastantes de transição do entretenimento para a política. Enquanto o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, ex-humorista, adaptou seu perfil diante da guerra, o ex-ator e governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger encontrou limites quando a performance não foi suficiente para governar.
O verdadeiro teste para José de Abreu, caso eleito, não será a campanha eleitoral, mas a capacidade de adaptar seu personagem público às exigências da função parlamentar, que inclui negociação, construção de consenso e legislação.
O debate levantado pela candidatura reflete uma questão mais ampla: se a política contemporânea ainda acredita que pode existir sem se transformar em espetáculo, ou se o personalismo, agora potencializado pelas redes sociais e pela polarização, tornou-se a regra.