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Países árabes do Golfo Pérsico pressionaram os Estados Unidos na semana passada para evitar um ataque militar iminente ao Irã, segundo informações da agência de notícias AP. A ação diplomática ocorreu após o presidente americano, Donald Trump, prometer ajuda aos manifestantes iranianos e depois recuar, citando o fim da "matança" no país.

A Arábia Saudita, Catar, Omã e Egito aconselharam o regime de Teerã a agir com cautela, em um movimento para conter a escalada de tensões na região. O temor central é que uma ação militar americana desencadeie uma violência generalizada que atingiria seus próprios territórios e economias.

Interesses estratégicos e medo de retaliação

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Embora tenham interesse em um Irã enfraquecido, as nações do Golfo temem que a violência saia de controle. "Eles também temem que a violência saia de controle e que acabem se tornando alvo de ataques iranianos", afirma Pauline Raabe, cientista política do think tank Middle East Minds, com sede em Berlim.

Eckart Woertz, diretor do Instituto Giga para Estudos do Oriente Médio, em Hamburgo, compartilha da análise. Ele ressalta que uma eventual queda do regime em Teerã não ocorreria sem violência, que poderia se voltar contra os países vizinhos e gerar um movimento significativo de refugiados.

Risco de bloqueio e impacto econômico global

Um confronto direto poderia levar o Irã a bloquear rotas comerciais estratégicas, como o Golfo Pérsico, com impactos devastadores. "Se o Irã decidir bloquear rotas comerciais, por exemplo, isso terá um impacto significativo na economia dos países do Golfo", explica Pauline Raabe.

Ela lembra que ações similares já ocorreram no Mar Vermelho, onde a milícia houthi, aliada do Irã, atacou navios internacionais. Tais desdobramentos teriam "enormes consequências econômicas na região" e, posteriormente, "para a economia mundial como um todo".

Processo de transformação econômica em risco

Eckart Woertz destaca que a região do Golfo não precisa de perturbações neste momento crítico de transição. "A Arábia Saudita quer se reposicionar economicamente. Qualquer agitação é um grande problema", afirma, referindo-se aos esforços para preparar uma economia pós-energias fósseis.

Segundo o especialista, a exploração de recursos naturais, especialmente petróleo, depende de confiança e de cadeias de abastecimento que funcionem. "Qualquer incerteza é péssima", complementa.

Preferência pela estabilidade autoritária

As elites políticas da região demonstram preferir a estabilidade oferecida pelo regime autoritário atual no Irã a se envolver com forças novas e desconhecidas. "Após um período de distanciamento, ambos os lados aprofundaram os contatos diplomáticos nos últimos anos – e não querem colocar isso em risco", observa Woertz.

Pauline Raabe acrescenta que os governos do Golfo também querem evitar protestos como os da Primavera Árabe de 2011 em seus próprios países. Para preservar a estabilidade interna, eles provavelmente tentarão fazer concessões específicas à população, baseando-se em experiências anteriores.

Contexto dos protestos e posição internacional

Os esforços diplomáticos ocorrem em meio a protestos no Irã. A organização Human Rights Activists (HRA), com sede nos EUA, contabiliza 4.029 mortes em manifestações, a maioria de manifestantes, com outros 9 mil casos sob investigação.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU realizará, nesta sexta-feira (23), uma sessão extraordinária sobre a "violência alarmante" no país, por iniciativa de outras nações. A posição de Trump, que inicialmente prometeu ajuda e depois recuou, contrasta com a avaliação desses países e de organizações de direitos humanos.