O Banco Master, envolvido em um dos maiores rombos financeiros recentes do país, mantém conexões diretas com o entorno de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), conforme revelado por reportagens. Embora não haja acusações formais, os vínculos incluem um contrato de R$ 129 milhões com o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes e investimentos de um cunhado do controlador do banco em negócio ligado a familiares do ministro Dias Toffoli.
O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) iniciou o maior ressarcimento de sua história, com pagamentos que podem chegar a R$ 49 bilhões para cerca de 800 mil credores do Master. No entanto, fundos de previdência de servidores públicos estaduais e municipais, com cerca de R$ 1,86 bilhão aplicados em títulos do banco, não são cobertos pela garantia e entraram na fila de credores da liquidação.
Contratos milionários e vínculos familiares
O escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, firmou com o Banco Master um contrato que previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por três anos, totalizando R$ 129 milhões, para representar a instituição em diferentes frentes. O mesmo escritório atuou em uma queixa-crime movida por Daniel Vorcaro, controlador do banco, e pela própria instituição financeira contra um economista – ação rejeitada em todas as instâncias.
Além disso, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, foi o único cotista de fundos que compraram participação em um resort no Paraná ligado a irmãos e a um primo do ministro Dias Toffoli. As relações, embora não constituam prova de crime, alcançam a cúpula do STF e transformam a aparente normalidade dos negócios em objeto de escrutínio público.
Risco ampliado a recursos públicos e aposentadorias
Enquanto o FGC cobre parte dos prejuízos de clientes comuns, o rombo do Banco Master atingiu em cheio o patrimônio de servidores públicos. Fundos de previdência complementar de estados e municípios aplicaram cerca de R$ 1,86 bilhão em títulos do banco, valores que agora dependem do longo e incerto processo de liquidação judicial da instituição.
“O risco deixa de ser apenas privado e passa a ser coletivo: dinheiro público, aposentadoria futura, confiança institucional”, contextualiza a análise. A situação evidencia como crises financeiras privadas no Brasil frequentemente respingam em recursos públicos, um padrão histórico que se repete.
Contexto histórico e paralelo com os anos 1980
A análise traça um paralelo entre o caso atual e a sensação de desalento retratada na música de protesto brasileira dos anos 1980. Canções de bandas como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e do cantor Cazuza, que criticavam a exclusão social e a corrupção, ecoam a percepção de que, quatro décadas depois, “o futuro [continua] repetindo o passado”.
O caso do Banco Master é apontado como um símbolo recente de um velho problema brasileiro: a modernização estética que não se traduz em mudanças estruturais profundas, permitindo que mecanismos de concentração de poder e risco permaneçam intactos.
Próximos passos e consequências institucionais
O processo de liquidação do Banco Master e o ressarcimento pelo FGC devem se estender por anos. A situação coloca sob os holofotes a atuação de órgãos de controle e a capacidade do sistema de evitar que aparências de conflito de interesses, especialmente em altas esferas do Judiciário e do sistema financeiro, se tornem rotina.
Para analistas, o episódio reforça a necessidade de maior transparência e regras mais rígidas para transações entre grandes instituições financeiras e o entorno de autoridades com poder de influência sobre o setor, a fim de proteger o erário e a confiança nas instituições.