O grande desafio atual para a indústria de robôs humanoides, em meio a uma onda de expectativas, é sair das demonstrações espetaculares e começar a realizar tarefas úteis no mundo real em escala. A avaliação foi feita por três especialistas em robótica durante um painel no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, nesta quinta-feira, moderado pela editora do *Business Insider*, Jamie Heller.
Jake Loosararian, CEO da startup de infraestrutura Gecko Robotics, afirmou que a implantação prática é o principal obstáculo para o setor começar a gerar impactos significativos e ter um roteiro claro de crescimento. "Você tem que implantar antecipadamente e construir seus robôs o mais próximo possível do ambiente. E isso lhe dá as informações e o conjunto de dados que não existem em nenhum lugar da internet, em nenhum lugar do YouTube, sobre como são esses ambientes", explicou Loosararian.
O abismo entre o laboratório e a realidade
Daniela Rus, diretora do Laboratório de Ciência da Computação e Inteligência Artificial do MIT (CSAIL), destacou a lacuna entre a capacidade dos robôs em ambientes controlados e sua atuação em funções tradicionalmente humanas. "Posso dar a você um robô que dobrará sua roupa e carregará sua máquina de lavar louça, mas pode custar meio bilhão de dólares", disse Rus, ilustrando o custo proibitivo atual.
Para ela, superar essa barreira exigirá avanços na capacidade de percepção e manipulação do mundo pelos humanoides, com sensores aprimorados e novos modelos de IA que possam lidar com situações inéditas.
Aprendizado por demonstração e a "inteligência" necessária
Shao Tianlan, CEO da empresa chinesa de IA e robótica Mech-Mind, identificou como uma grande barreira o desenvolvimento da capacidade dos robôs aprenderem diretamente com colegas humanos. "Se quisermos implantar um robô, eu diria que a demonstração é a maneira mais intuitiva de dizer aos robôs o que fazer. É exatamente assim que nós, humanos, ensinamos os outros", afirmou Tianlan.
O executivo, cuja empresa entregou mais de 10 mil "robôs inteligentes" nos últimos 12 meses, acrescentou não acreditar que os humanoides precisem de uma inteligência de "nível Einstein" para tarefas úteis. Ele previu que, nos próximos "algumas centenas de dias", os robôs assumirão alguns trabalhos humanos em ambientes controlados, como logística e setores de serviços.
Hype, teleoperação e o "segredo sujo"
Os humanoides vivem um momento de grande visibilidade, com empresas como a Tesla e a Figure se preparando para iniciar a fabricação em larga escala de suas máquinas. Elon Musk, CEO da Tesla, fez previsões ousadas sobre seu robô Optimus, afirmando que ele poderia eliminar a pobreza e ser o maior produto de todos os tempos.
Contudo, a maioria dos robôs humanoides ainda não foi implantada em ambientes reais. Muitas demonstrações são encenadas em configurações rigidamente controladas, e algumas utilizam teleoperação – onde operadores humanos pilotam os robôs remotamente. Loosararian chamou a teleoperação de "segredinho sujo" da robótica e defendeu que as empresas do setor têm a responsabilidade de informar os clientes se seus robôs operam de forma autônoma ou com assistência humana. "Há muita autonomia para certas tarefas, mas, na maioria dos casos, para humanoides, é aprender no ambiente, e ele tem que fazer isso com teleoperação", concluiu.