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Um veterano fuzileiro naval dos Estados Unidos que treinou soldados ucranianos em 2005 afirma que a mentalidade de improviso e resiliência observada há duas décadas é a mesma que hoje impulsiona a inovação militar da Ucrânia contra a Rússia. Troy Smothers, hoje sargento na reserva e fundador de uma ONG que auxilia tropas ucranianas, detalha à Business Insider como a escassez de recursos forjou uma cultura de reparo e adaptação que se tornou uma vantagem estratégica.

Na missão de 2005, cerca de 100 marines foram enviados a Odesa para ensinar táticas de infantaria da OTAN a militares ucranianos, que na época ainda operavam majoritariamente com doutrina e equipamentos soviéticos obsoletos. "Sabíamos que o orçamento militar da Ucrânia era, digamos, subfinanciado. Tudo que eles tinham era equipamento da era soviética", relata Smothers.

Da obsolescência à vantagem cultural

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Smothers descreve equipamentos precários, como helicópteros de fabricação russa com poças de fluido hidráulico no chão da aeronave, um risco tão grande que "definitivamente, ninguém fumava perto daquelas coisas". No entanto, ele viu naquela realidade uma prova de como os ucranianos "trabalhavam com o que tinham".

Essa mentalidade, segundo ele, é cultural e deriva de fatores econômicos. "Salários lá são muito mais baixos, então as pessoas estão mais acostumadas a consertar eletrônicos ou eletrodomésticos por conta própria. Se um celular quebra, elas abrem e começam a soldar", explica. Esse conhecimento eletrônico disseminado criou, com a guerra, um exército de pessoas capacitadas para inovar rapidamente.

Ingenuidade no campo de batalho

Um exemplo emblemático dessa inovação é um dispositivo caseiro acoplado a drones de ataque. Apelidado de "bigode", consiste em dois fios rígidos de cobre que, ao tocarem no alvo, completam um circuito e detonam o explosivo carregado. O dispositivo de segurança é um simples pino impresso em 3D, removido no lançamento.

Enquanto um "bigode" custa entre US$ 12 e US$ 15 na Ucrânia, um equipamento similar nos EUA custaria US$ 400 a US$ 500, mesmo em larga escala, destaca Smothers. Ele próprio tem comprado e usado dezenas desses dispositivos no desenvolvimento de drones com fibra óptica à prova de interferência para as tropas ucranianas.

Papéis invertidos e lições para o Ocidente

Para o veterano, os papéis se inverteram. "Há 20 anos, estávamos lá para levar os ucranianos aos padrões da OTAN. Hoje, posso ver o quanto eles podem nos ensinar sobre inovação. É humilhante", reflete. Ele observa que o Ocidente agora tenta aprender com as táticas ucranianas, que transformaram drones de brinquedo e peças compradas no Alibaba em armas de alta tecnologia.

Smothers, que viaja periodicamente para a Ucrânia desde 2022 para auxiliar no desenvolvimento de drones, conclui que a determinação de "fazer funcionar com o que se tem" permanece a mesma, mesmo com o recebimento de equipamentos ocidentais. Ele questiona se os EUA, em situação similar, adaptar-se-iam com a mesma velocidade. "A maioria desses ucranianos eram apenas pessoas comuns vivendo suas vidas até serem forçadas pela invasão a começar a matar russos. Mas eles tiveram uma vantagem incrível em encontrar soluções", finaliza.