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O Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, manteve sua taxa básica de juros inalterada nesta quarta-feira (28), em uma decisão amplamente esperada pelos mercados. A faixa de juros permanece entre 3,5% e 3,75%. A reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) ocorre em um contexto de intensa pressão política do governo Trump e de uma investigação criminal do Departamento de Justiça (DOJ) contra o presidente do Fed, Jerome Powell.

O mandato de Powell como presidente do Fed termina em maio, e o governo Trump deve anunciar seu sucessor nas próximas semanas. A investigação do DOJ, que pode resultar em um indiciamento criminal, e o caso da governadora Lisa Cook no Supremo Tribunal têm levantado preocupações sobre a independência futura da instituição.

Divisão no comitê e visão sobre a economia

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A decisão de manter os juros não foi unânime. Dos 12 membros do FOMC, dez votaram a favor da manutenção, mas houve duas dissidências. Stephan Miran e Christopher Waller preferiram um corte de 0,25 ponto percentual. Esta é a quarta reunião consecutiva com votos divididos, refletindo visões diferentes sobre a prioridade entre controlar a inflação e sustentar o emprego.

Em comunicado, o FOMC removeu a frase "riscos de baixa para o emprego aumentaram nos últimos meses", sinalizando uma visão menos pessimista sobre o mercado de trabalho. Powell afirmou que a economia "entra em 2026 com bases sólidas" e que o crescimento é "robusto", mas reconheceu que os ganhos de empregos permanecem baixos e o setor habitacional é "fraco".

Powell defende independência e evita comentar sucessão

Em coletiva de imprensa, Powell defendeu veementemente a independência do Fed frente à pressão política. "O objetivo da independência não é proteger os formuladores de política", disse Powell. "É manter o banco central focado na economia". Ele argumentou que a separação entre política monetária e controle direto de autoridades eleitas é uma prática comum em democracias avançadas que "serviu bem ao povo".

Questionado sobre a investigação do DOJ e sua participação nas audiências do caso da governadora Lisa Cook no Supremo Tribunal, Powell limitou-se a dizer que o caso Cook é "o mais importante processo legal nos 113 anos de história do Fed". Sobre sua sucessão, ele evitou comentar planos futuros, mas deu um conselho ao próximo presidente: "Fique fora da política eleitoral. Não se deixe levar pela política eleitoral. Não faça isso".

Box: O que está em jogo na investigação contra Powell
O Departamento de Justiça, a pedido da administração Trump, abriu uma investigação criminal contra Jerome Powell por suposta perjúrio. A acusação alega que Powell mentiu em depoimento ao Congresso em junho sobre reformas em prédios do Fed em Washington. Powell negou as acusações em um vídeo público, afirmando que a investigação é uma retaliação por o Fed não ter atendido aos pedidos do presidente por juros mais baixos.

Impacto nas taxas para consumidores e visão dos economistas

A manutenção dos juros significa que o alívio para consumidores que esperam por financiamentos mais baratos para casa e carro deve demorar. "Dada a provável pausa em novos cortes, consumidores que aguardam reduções nas taxas de juros para comprar veículos ou casas precisarão esperar um pouco mais", disse Charlie Wise, vice-presidente sênior da TransUnion.

Analistas do mercado interpretam a decisão como um sinal de que o Fed vê o mercado de trabalho "resfriado, mas estável", permitindo focar na inflação teimosa, que permanece acima da meta de 2%. Elizabeth Renter, economista-chefe da NerdWallet, afirmou que "se os dados do mercado de trabalho indicassem uma fraqueza convincente, eles cortariam, mas simplesmente não é o caso".

Contexto político e futuro da política monetária

O presidente Donald Trump tem pressionado publicamente por juros mais baixos, chegando a ameaçar demitir Powell e apelidando-o de "Atrasado". Em discurso em Davos, Trump disse estar entrevistando possíveis sucessores e afirmou: "É incrível como as pessoas mudam quando assumem o cargo".

No Congresso, a investigação do DOJ complica a indicação do próximo presidente do Fed. O senador republicano Thom Tillis, da Carolina do Norte, declarou que se oporá a qualquer indicado de Trump para o banco central até que "esta questão legal seja totalmente resolvida".

O FOMC se reunirá novamente em 17 e 18 de março. Powell reiterou que a política monetária "não segue um curso pré-determinado" e que as decisões são tomadas "reunião por reunião". A projeção do próprio Fed ainda prevê um corte de juros para 2026, mas o momento permanece incerto.