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Em uma carta pessoal dirigida a uma amiga, a jornalista brasileira Miriam Sanger, que vive em Israel desde 2012, oferece uma análise profunda sobre a complexidade e a aparente intratabilidade do conflito na região. A autora, que iniciou sua carreira na Folha de S.Paulo, busca mostrar "Israel como ele é – plural, democrático, idiossincrático e inspirador".

Sanger descreve o cenário como um "louquíssimo Oriente Médio", onde a tensão constante desafia a sanidade mental. Ela contextualiza a situação atual dentro de um histórico de conflitos que remonta ao século XX, quando potências estrangeiras traçaram fronteiras arbitrárias, agrupando uma miríade de "tribos, correntes, etnias, religiões ou visões de mundo tão díspares".

Um mosaico de identidades em território ínfimo

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A jornalista detalha a composição singular da sociedade israelense, que soma às suas próprias divisões internas judaicas uma "gigante minoria muçulmana" e outras culturas como a drusa, beduína, ortodoxa grega, armênia, bahá’í, circasiana e samaritana. Este convívio, segundo ela, ocorre em um "espaço ínfimo que provoca uma claustrofobia doida".

Sanger relata a sensação de isolamento geopolítico, afirmando que países vizinhos como Síria ou Líbano não a aceitam como israelense, enquanto outros, como Egito ou Jordânia, "não gostam de mim". Ela questiona a expectativa de uma paz definitiva, sugerindo que o objetivo real da região talvez seja apenas "algum tipo de equilíbrio sutil" entre os conflitos.

O choque entre expectativas e realidade

A carta estabelece um contraste entre a percepção externa e a experiência interna. Enquanto a amiga, de fora, sonha com um final "feliz, iluminado, esperançoso e definitivo" para Israel, Sanger vê a realidade como uma "novela de infinitos capítulos", onde a paz é um objetivo que "quanto mais se busca, mais ele se afasta".

Ela reflete sobre o período anterior ao ataque de 7 de outubro de 2023, descrevendo-o como uma época em que os israelenses "achávamos que tudo estava tranquilo" e viviam um "clima de paz", quando, na verdade, estavam "perdidos em nossos próprios sonhos inconsistentes". A violência do ataque, em suas palavras, foi "horripilante e de uma violência vulgar".

Um chamado para compreender a lógica regional

Miriam Sanger conclui que talvez o destino dessa parte do mundo não seja a paz no sentido ocidental. Ela propõe que, para acompanhar os eventos sem desespero, é necessário aprender a "língua própria" da região, onde "a fé, a honra, a tribo, a dúvida, a busca, a força bruta e a paciência" são os elementos que regem a dinâmica.

"É um desafio e tanto, querida. Mas é possível", finaliza a jornalista, oferecendo um vislumbre de resiliência frente à complexidade aparentemente insolúvel do conflito israelense-palestino e das relações regionais.