O crédito privado, um mercado de empréstimos corporativos opacos que movimenta US$ 3 trilhões globalmente, está se preparando para um "rush do ouro" dos investidores de varejo. A indústria, que cresceu dez vezes desde a crise financeira de 2008, agora mira os cerca de US$ 12 trilhões guardados nas contas de aposentadoria 401(k) e IRAs dos americanos comuns, segundo análise do Boston Consulting Group. A mudança, impulsionada por novas regras e pressão por crescimento, divide especialistas entre uma oportunidade de democratizar retornos altos e um risco sistêmico para a economia.
O crédito privado envolve fundos que captam dinheiro de investidores (como fundos de pensão e indivÃduos ultra-ricos) para emprestar diretamente a empresas, muitas vezes de médio porte, com taxas de juros 1,5% a 3% maiores que os tÃtulos públicos. A indústria explodiu após regulamentações pós-2008, como a lei Dodd-Frank, que fizeram os bancos tradicionais recuarem de empréstimos considerados mais arriscados.
Pressão regulatória e o caminho para o varejo
A principal barreira para incluir ativos privados em planos de aposentadoria nunca foi a lei, mas o risco de processos judiciais. As leis de aposentadoria nos EUA permitem que participantes processem seus provedores por não agirem como "fiduciários" responsáveis. Os altos custos associados aos fundos de crédito privado aumentam esse risco. Após a eleição de Donald Trump, executivos do setor buscaram explicitamente um "alÃvio litigioso".
Em agosto, Trump emitiu uma ordem executiva para "democratizar o acesso a ativos alternativos para investidores de 401(k)", apoiando a ideia de dificultar ações judiciais. Martin Small, CFO da BlackRock, declarou em dezembro que espera "ver mudanças reais no primeiro trimestre de 2026" vindas de agências reguladoras e do Congresso. "Trabalho nessa área minha carreira toda e posso dizer que vimos mais progresso no último ano do que nos últimos 20", afirmou Small.
Opacidade e preocupações com a proteção do investidor
No cerne das crÃticas está a natureza privada desses empréstimos. Os termos dos contratos, as avaliações de risco (ratings) e a precificação não são transparentes e ficam fora do escrutÃnio público e regulatório imediato. Enquanto no mercado público cada emissão de dÃvida é minuciosamente analisada por agências como Moody's e S&P, no crédito privado essa análise é sigilosa.
Algumas agências de rating do setor atraÃram atenção pelo volume. A Egan Jones emitiu mais de 3.600 ratings em 2024 com apenas 20 analistas, uma proporção muito superior à dos concorrentes, o que levou a SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos EUA) a investigar suas práticas. "Alguns maus exemplos podem criar grandes problemas de reputação para todo o canal", alerta Alex Blostein, analista da Goldman Sachs.
Há também o receio de que os piores ativos sejam repassados a investidores de varejo menos sofisticados. "Um casal de maus atores poderia realmente estragar a festa", completa Blostein. O economista de Oxford, Ludovic Phalippou, alertou o Parlamento britânico sobre a falta de proteção forte para o investidor, classificando a entrada do varejo no setor como um "drama".
Retornos questionáveis e riscos de alavancagem
Além da opacidade, estudos questionam se os retornos superiores justificam os riscos. Uma pesquisa recente de acadêmicos da Johns Hopkins e da UC Irvine argumentou que os retornos do crédito privado são "ilusórios" e não superam consistentemente os mercados públicos, uma conclusão fortemente contestada pela indústria.
Defensores, como Steve Schwarzman, CEO da Blackstone, argumentam que o setor é mais seguro que os bancos, com alavancagem média de 1,4 vezes o capital, contra mais de 10 vezes nos grandes bancos. Marc Rowan, CEO da Apollo
No entanto, o Federal Reserve Bank de Boston identificou que os bancos ainda estão envolvidos, emprestando dinheiro para os próprios fundos de crédito privado ou para seus investidores institucionais, criando camadas extras de alavancagem. Um estudo do Fed concluiu que há risco de exposição bancária ao setor, mas que empréstimos são geralmente garantidos e seriam os primeiros a serem pagos em uma crise, limitando o contágio financeiro em condições econômicas "severamente adversas".
O futuro: democratização ou desastre?
Enquanto o debate sobre os riscos sistêmicos continua, o crédito privado não para de crescer. Até céticos como o JPMorgan estão reservando US$ 50 bilhões para investir no setor. A Deloitte projeta que o dinheiro de investidores de varejo no crédito privado, hoje em US$ 80 bilhões, pode chegar a US$ 2,4 trilhões no inÃcio da próxima década.
Para a indústria, liderada por Apollo e Blackstone, a inclusão em planos 401(k) é uma missão quase evangelizadora, que traria "resultados 40% a 50% melhores" para a aposentadoria, segundo Rowan. Para os crÃticos, é uma jogada arriscada para manter o crescimento em um setor onde as fontes tradicionais de capital já estão superalocadas. A questão que permanece é se a aposentadoria do americano comum se tornará mais estável e rentável ou será apostada em estruturas de crédito opacas que podem desmoronar na próxima crise.