Michael Fiddelke assume oficialmente como CEO da Target neste fim de semana, herdando uma empresa sob pressão em múltiplas frentes. O executivo, que começou como estagiário de finanças e era o diretor de operações, assume o comando após 10 dos últimos 12 trimestres com vendas comparáveis estagnadas ou em queda. A ação da varejista caiu mais de 25% no último ano.
Além dos desafios financeiros, a Target enfrenta tensões com sua força de trabalho e a comunidade de Minneapolis, onde tem sua sede, devido à atuação de agentes de imigração. A empresa também perdeu espaço na lista das 50 empresas mais admiradas da Fortune após mais de duas décadas de presença.
Plano de recuperação e desafios internos
Durante a conferência de resultados de agosto, Fiddelke apresentou um plano de três pontos para reconquistar os consumidores americanos: reforçar o apelo de estilo da marca, melhorar a experiência nas lojas e investir pesadamente em tecnologia. "Estou assumindo o cargo com um compromisso claro e urgente de construir um novo momento nos negócios e retornar ao crescimento lucrativo", declarou o novo CEO.
No entanto, a relação com os funcionários está abalada. Centenas de empregados assinaram uma carta pedindo que a empresa proíba a entrada da ICE (Imigração e Alfândega) em suas lojas. Vários funcionários relataram decepção com a resposta da empresa às ações de fiscalização de imigração em Minneapolis, onde agentes federais detiveram dois funcionários em uma loja.
Transição de liderança e herança social
A mudança na liderança traz uma complexidade adicional: o ex-CEO Brian Cornell permanece como presidente executivo do conselho. Especialistas alertam que essa estrutura pode limitar a autonomia do novo chefe. "Caso contrário, o novo CEO é CEO apenas no nome e não tem a oportunidade de realmente prosperar e exercer sua própria vontade", afirmou Gerald Storch, ex-vice-presidente da Target que deixou o conselho em 2005.
Sob o comando de Cornell, a Target obteve bons resultados financeiros e defendeu causas progressistas, como coleções do Orgulho LGBTQ+ e apoio a negócios de propriedade de negros. No entanto, com a piora nos resultados, a empresa recuou de algumas posições, reduzindo coleções de verão do Orgulho e encerrando algumas iniciativas de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão). A companhia também fez sua maior doação política: US$ 1 milhão para o fundo de posse presidencial de Donald Trump em 2025.
Crise política e resposta do novo CEO
Com cerca de 50 lojas na região metropolitana de Minneapolis, a Target foi arrastada para um turbilhão político nacional. A liderança corporativa não se manifestou publicamente após agentes federais usarem estacionamentos de lojas como locais de transferência de detidos. Após um segundo residente de Minneapolis ser morto pela Patrulha de Fronteira no sábado, Fiddelke se dirigiu aos funcionários na segunda-feira.
Em uma mensagem em vídeo, ele disse que a violência recente e a perda de vidas na comunidade "é incrivelmente dolorosa". Especialistas em liderança consideraram o movimento correto, mas destacam o difícil caminho à frente. Jennifer Eggers, presidente da empresa de consultoria LeaderShift Insights, disse que Fiddelke precisa estabilizar o negócio, honrar o Estado de Direito e ainda reconhecer o estresse real de funcionários e comunidades.
Vantagens e possíveis caminhos
Um estudo de 2025 da Yale sobre transições de liderança em empresas da Fortune 500 mostra que CEOs internos tendem a produzir melhores resultados que os externos. Fiddelke, um veterano da Target com laços familiares na comunidade de Minneapolis, tem credibilidade interna. "Esses atributos sinalizam para a força de trabalho: 'Eu sou um de vocês, estou aqui há muito tempo, então trabalhem comigo'", analisou Sarah Federman, professora da Universidade de San Diego.
Ela sugere que crises são oportunidades para líderes construírem relacionamentos e vê como um gesto de compromisso o fechamento temporário de lojas em áreas com atividade intensa de agentes de imigração. No entanto, movimentos radicais poderiam colocar a empresa na mira de Donald Trump, em um delicado equilíbrio entre pressões políticas e responsabilidade social.