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A Tesla reportou nesta quarta-feira (29) os resultados financeiros do quarto trimestre de 2025, marcando o segundo ano consecutivo de queda nas vendas globais de veículos elétricos. A empresa entregou 418.227 carros entre outubro e dezembro, uma redução de 15% em relação ao mesmo período de 2024. Para o ano completo, as vendas caíram 8,6%, totalizando 1,65 milhão de unidades.

O desempenho contrasta com o otimismo do mercado financeiro em relação aos projetos de inteligência artificial e robótica da empresa, que mantiveram o valor das ações da Tesla próximo aos recordes históricos. O relatório é divulgado em um momento crucial, onde analistas avaliam o plano da montadora para veículos autônomos (robotáxis) e o supercomputador de treinamento de IA Dojo 3.

Queda generalizada nos principais mercados

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A desaceleração das vendas foi sentida em todas as principais regiões. Nos Estados Unidos, a Tesla foi impactada pelo fim do crédito fiscal federal de US$ 7.500 para compradores de EVs, que expirou no terceiro trimestre. Na Europa, as vendas caíram quase 27% em 2025, enquanto na China a montadora viu seu Model 3 ser superado, pela primeira vez, pelo SU7 da Xiaomi.

A concorrente chinesa BYD consolidou sua liderança no setor de veículos totalmente elétricos, com 2,26 milhões de unidades entregues no ano passado, abrindo uma vantagem de 620 mil carros sobre a Tesla. "A história é que 2025 marca o ano em que a Tesla perdeu a coroa de VE para a BYD", afirmou Howard Yu, professor da IMD Business School, em análise ao Business Insider.

Estratégia de preços e novos modelos

Em outubro, a Tesla lançou as versões "Standard" do Model 3 e Model Y, com preços reduzidos em cerca de US$ 5.000 em relação às configurações básicas anteriores. O Model 3 Standard parte de US$ 38.630, enquanto o Model Y Standard começa em US$ 41.630. A medida representa um afastamento do compromisso anterior de Elon Musk de construir um carro de US$ 25.000.

Os redesigns (facelifts) dos Model Y e Model 3, lançados no início de 2025 com novas barras de LED e ângulos de carroceria mais afiados, não foram capazes de reverter a tendência de queda nas vendas, contrariando a expectativa do setor de que atualizações de design impulsionam as vendas por meses.

Pressão no fluxo de receita regulatória

A Tesla também enfrenta um novo desafio financeiro com a mudança no cenário regulatório americano. Por anos, a empresa lucrou bilhões de dólares vendendo créditos de emissões para outras montadoras que não cumpriam as metas de eficiência energética. Esse modelo foi desmontado com a lei "Big, Beautiful Bill Act", assinada pelo ex-presidente Donald Trump, que eliminou as multas para fabricantes que não produzissem veículos mais eficientes.

Este é o primeiro trimestre completo em que a venda federal de créditos está praticamente fora da mesa para a Tesla, restando apenas um punhado de estados com suas próprias regras de emissões.

Otimismo com IA contrasta com prazos adiados

Enquanto o negócio de carros enfrenta dificuldades, o mercado mantém expectativas altas para os projetos de inteligência artificial. Elon Musk anunciou o reinício do desenvolvimento do Dojo 3, supercomputador de treinamento de IA que agora tem como foco a "computação de IA baseada no espaço". O projeto havia sido descontinuado em agosto de 2025.

No entanto, os cronogramas para os carros autônomos continuam atrasados. Musk havia previsto que, até o final de 2025, o serviço de robotáxi da Tesla estaria operando em 8 a 10 cidades metropolitanas, cobrindo metade da população dos EUA, com 500 veículos em Austin. Nenhuma dessas metas foi atingida, embora a empresa tenha removido os motoristas de segurança de seus veículos em Austin neste mês.

Análises divergentes de Wall Street

As instituições financeiras apresentam visões contrastantes sobre o futuro da Tesla. O JPMorgan reduziu sua estimativa de lucro por ação (EPS) para US$ 0,43 e reiterou sua classificação "underweight" (subponderar), com preço-alvo de US$ 150, implicando uma queda de 65% em relação aos níveis atuais. Analistas do banco afirmaram que o preço das ações parece "cada vez mais divorciado" da "perspectiva de lucros em rápido declínio".

Já a Wedbush, tradicionalmente otimista, mantém uma classificação "outperform" (superar o mercado) e preço-alvo de US$ 600, prevendo que a Tesla pode atingir uma valorização de US$ 2 trilhões no próximo ano. "Acreditamos que a Tesla possuirá ~70% do mercado autônomo global na próxima década", escreveu uma equipe liderada por Dan Ives.

A UBS emitiu uma classificação "venda" com preço-alvo de US$ 247, argumentando que o mercado já precificou o cenário positivo para os negócios de IA, cujos retornos podem estar mais distantes. A Oppenheimer afirmou que o progresso da Tesla em IA tem sido "mais lento que o antecipado".

Próximos passos e expectativas

Os investidores agora aguardam atualizações sobre a expansão do serviço de robotáxi para mais cidades dos EUA em 2026 e o desenvolvimento do Optimus, o robô humanoide da Tesla, cuja produção comercial está prevista para 2027. A empresa também planeja um novo anúncio sobre o Roadster de segunda geração no Dia da Mentira (1º de abril), que incluirá peças fabricadas pela SpaceX, segundo Musk.

O cenário para 2026 permanece desafiador, com a Wells Fargo alertando que "os fundamentos de 2026 parecem fracos, não deixando suporte se Robotaxi/Optimus desapontarem". A Tesla precisará equilibrar a recuperação de seu negócio central de veículos elétricos com a execução bem-sucedida de suas ambiciosas apostas em tecnologia autônoma.